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Vivaldi na Ponta Grossa

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 25 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de abr.

"O camponês festeja — dança, canta —o alívio doce da colheita concluída. Há vinho correndo solto, há risos soltos,há corpos que já não pesam.

A alegria se acende no calor do Baco,e, pouco a pouco, perde o passo, tropeça,até que o prazer, já farto de si mesmo,adormece." Vivaldi

Escuto Outono de Vivaldi, primeira parte; o sol nasce ao meu lado direito. Eu só pesquisei música clássica e logo ela veio. Lógico que vocês não precisam acreditar, mas o algoritmo é muito mais poderoso do que imaginamos. Há mais pessoas na praia neste amanhecer do que algumas horas depois. De todas que vi no meu périplo apenas uma admirava serenamente o início de mais um dia; sem celular. O restante fotografava o brilho na Ponta Grossa, nome do morro que o sol passaria a escalar, subindo para depois descer, como nossas vidas. Subimos para descer, crescemos para definhar. Nesse intervalo passamos momentos únicos que convencionamos chamar de vida.


Sol a sol.

Lua a lua.

Estação a estação.


Em suas origens etimológicas a ideia de "viver" foi expressada pelas palavras "existir" (vita, do latim) e "continuar" (lif, do inglês). Desde sempre nós existimos e continuamos. Simples, viver é existir e continuar a viver. Em mandarim o símbolo que traduz a ideia de vida remete àquela de um broto nascendo da terra:




A linha horizontal maior é a terra, a vertical é o broto. Noutro dia pesquiso e divago etimologicamente sobre o que seriam a linha intermediária e a última, superior, que é talhada por um risco cuja parte cortante está para baixo. Desconfio que precisaram retratar também o fim da existência por uma lâmina, uma foice, que poda a árvore depois de broto. Individualmente a finitude precisaria ser retratada. Histórica e coletivamente, existimos há muitos milhares de anos. Será por esse motivo que a poda, o traço, na parte superior esquerda não alcança a terra? Bom, é demais para um domingo simples em que logo o almoço de família será servido.


Eu sei.


Nada mudará em nossas vidas aprender a palavra vida em mandarim.


Eu sei.


Se tivéssemos que resumir a nossa vida, esta única, individual, a tua, a minha, a do vizinho, com apenas um símbolo, qual seria? Para, não entra nessa não, não hoje. Nem amanhã. O pernil precisa ser marinado. O teu filho tem jogo de futebol e você precisa dar uns bons gritos na torcida.


A ideia principal da crônica nem era essa.


Culpa do Vivaldi. Culpa de sua genial "As Quatro Estações" que me levou para 1725 e outros pensamentos abstratos enquanto escrevia. Somente 100 anos depois foi tirada a primeira fotografia. Um gênio resolve, então, escrever um concerto para violinos cantarem as épocas do ano. Não tinha foto da colheita, da embriaguez e das caçadas, partes que ele retrata em seu Outono. Nós nunca nos contentamos em semear, colher e comer. Não sem festa. Não sem música. Para transmitir a ideia da embriaguez Vivaldi faz os violinos desandarem no primeiro movimento. Depois de estruturar um padrão alegre e embalado, o som tropeça e cambaleamos para um lado; para o outro.


Imaginei-me dançando na praia aqui ao lado quando via o sol nascer vindo eu da madrugada na década de 90. A juventude deve ser a linha intermediária da vida escrita em mandarim.


Jesus, era para ser simples!

Uma música clássica e o sol nascendo.

Uma caminhada.


Até meu algoritimo tropeçar na crônica.







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