... apenas abro as janelas do tempo e deixo o verbo falar...
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o sentido da vida; o silêncio à beira-mar
Carlos Camacho
há 4 dias
3 min de leitura
"Santos - Brazil", de Diego Torres Silvestre (Flickr), sob licença CC BY 2.0
Conforme prometido na crônica anterior, sem rodeios:
— Boa tarde! Silêncio. Se ele ouviu, não me respondeu.
— É bom demais olhar o mar, né... Silêncio. Se ele me ouviu, manteve-se silente deliberadamente.
— O Sr. mora aqui em Santos? Silêncio. Se ele me ouviu, definitivamente desejara naquele momento que fosse surdo.
Nenhum meneio de cabeça, sequer um piscar de olhos. Retira, calmamente, o seu chapéu e o coloca na mureta.
Começou assim. Não exatamente como lhes escrevo. Uma volta ao passado instigada pelo comentário de Meursault em O estrangeiro - Odeio que me façam perguntas! - não há como ser transcrita literalmente décadas após. Eu não escrevia crônicas na juventude. Instagram não existia. As impressões do passado, depois que os cabelos já são escassos e a meia careca se impõe pelos fios caídos aqui e acolá sem nenhuma cerimônia de despedida, viajam pelas emoções e não por diários que nunca escrevemos. Diários perdidos.
Pequenas alterações de estilo não alteram a essência daquele momento: as inúmeras tentativas para conseguir estabelecer minimamente algo que eu pudesse considerar um princípio de diálogo.
Uma certeza quase absoluta: nada havia além de mar e píer. O seu rosto à meia-ruga, a sua careca quase completa e a sua indiferença natural marcaram-me a ponto de desenhar ainda hoje tal cena; se assim soubesse.
São, pois, fragmentos próximos de uma cena inteiramente exata.
Um retrato falado dele ou, se qualquer dia acharem conveniente, um retrato-escrito seria perfeitamente possível de ser feito. Por ora é irrelevante a sua feição, mas sim as suas primeiras palavras.
Aproximei-me mais um pouco dele.
— Desculpe, não queria incomodar, mas o Sr. está bem? Só fiquei curioso para saber o que o Sr. tanto observa... O Sr. vem sempre aqui olhar o mar? Eu não sou daqui, vou embora amanhã. Vim para o casamento do meu amigo.
Silêncio. Olhou para mim com as sobrancelhas soerguidas, não mais que dois segundos. Virou-se mudo para o lado oposto ao meu onde o horizonte era mar sem píer nem porto, sem barco nem peixe. Só mar.
— Só fiquei curioso para saber por que o Sr. estava olhando para o píer... mas tive a impressão que o Sr. estava longe, muito longe... chegou a me ouvir antes?
Tornou a olhar para o píer e, poucos segundos depois, com alguma dificuldade, passou as suas pernas para o calçadão. Deu um pulinho e se firmou. Com sotaque estrangeiro, respondeu:
— Muita pergunta meu jovem! Como se eu fosse obrigado a te responder. Pra quê? Pra matar a tua curiosidade... Esse é um problema teu, não meu! Eu ouvi as suas perguntas, todas elas, só não estava a fim de conversa fiada. Pouco me interessa o que você faz aqui, de onde você é e a que veio.
Embora diretas, não soaram grosseiras. Respondeu com tanta naturalidade, como se me dissesse o óbvio. Subiu um pouco o tom apenas na expressão "esse é um problema teu, não meu!". Eu só ouvi.
E arrematou:
— Pergunta demais. A curiosidade matou o gato, não conhece o ditado? Vá se acostumando porque não há resposta para tudo. Deixe-me em paz e volte pra tua cidade.
E foi embora.
Dei-me por satisfeito.
Não era normal um velho sentado naquela mureta à beira-mar olhando para o nada onde nada havia de extraordinário. Desde o instante em que o vi tive a percepção de que ele estava pronto pra pular. As suas mãos apoiadas na mureta como se o impulso estivesse preparado.
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