Se não é um livro, é uma música.
Fica complicado viver assim; ordenadamente.
Estou desconfiado de que seja a segunda-feira mesmo. Passei as últimas quatro crônicas em busca do sentido da vida pela cabeça de Albert Camus, a partir de O estrangeiro. Despedi-me do tema no sábado, e já foi tarde.
Tarde demais.
Com a semana toda programada para cumprir normalmente a sua agenda, eis que me deparo com vocês cantando Sensível Demais, de Jorge Vercillo.
Gabi & Rapha, vocês não podem aparecer assim na vida das pessoas, numa segunda-feira, cantando como se não fossem interferir no universo. Fui criado no rock and roll, no pop, como grande parte dos adolescentes dos anos 80. Por um tempo a música se foi para dar lugar ao estresse do cotidiano, como se ela fosse o copo de uísque na companhia errada. Hoje afasto o estresse para que ela se sente ao meu lado e brilhe; a taça de vinho ao lado da mulher amada.
Hoje ouço também sertanejo e música clássica — Laura Pausini ao fundo enquanto escrevo. Falemos mais de vocês. Da igreja para os churrascos; de Lupionópolis, interior do Paraná, para Goiânia, e de lá para São Paulo. Jovens iniciando a carreira. Vi as fotos que vocês postaram em homenagem ao pai, que foi para a Itália trabalhar para pagar os empréstimos. Como ele, tenho duas filhas; por isso me emocionei. Não deve ser fácil construir carreira no sertanejo; o início imagino que deva ser assim mesmo, com empresário e cantando as clássicas.
Minha filha mais nova gosta de sertanejo e me dá algumas dicas. Liguei pra ela:
— Filha, você já ouviu Gabi & Rapha?
— Não, pai.
— Você não entende nada de sertanejo, filha!
Compartilhei o vídeo de vocês e completei:
— Quando as vi, a primeira lembrança que me veio foi a das lindas suecas, as irmãs Söderberg, do First Aid Kit, sabe? Guardadas as devidas proporções culturais, o impacto foi o mesmo. Essas duas vão estourar, só estão aquecendo!
Vocês nasceram música.
Agora, o chato que não consegue se calar: componham! A história de suas vidas; vocês. Se soltem, se joguem, a hora é agora. Destravem as emoções escondidas, as expectativas, as conquistas e as frustrações. Onde estão as suas noites de choro, a sofrência? E cantem tudo isso.
Façam como a Betina Roxo, se joguem!
Libertem a Laura Pausini que adormece em vocês! Algo me diz que seus escritos guardados, seus pensamentos existenciais, as memórias de viola no campo serão as suas melhores interpretações. A voz de vocês é uma dádiva, nasceram para o palco, é de um encantamento... mas nada comparável às que brotam de nossas histórias; peçam a intercessão de Marília Mendonça! Não lhes peço fardo pesado, apenas que tentem, uma canção ao menos. Veremos o mar se abrindo a Moisés.
Não há nada a ser escrito? Não há história que se converta em composição? Está tudo aí guardado. Talvez esteja equivocado, influenciado por Noites Brancas, de Dostoiévski, que estou lendo:
— História! — exclamei eu, assustado — Minha história? Mas quem lhe disse que eu tenho uma história? Eu não tenho história nenhuma...
— Não tem outro remédio senão tê-la... Como podia viver neste mundo sem ter uma história? — respondeu ela a rir.
É isso: uma pitada de Dostoiévski com a intercessão de Marília Mendonça.
Por favor, só não alterem o estilo! Botas longas, o branco brilhante, o preto brilhante.
O todo brilhante.
Comentários