Ticiano (Tiziano Vecellio), Sísifo (1548–1549). Museu do Prado, Madri.
"Brazilian drivers are either joyous madmen or icy sadists. The confusion and anarchy of this traffic are regulated by one law: get there first, no matter what the cost". Albert Camus, 15 de julho de 1949, em visita ao Rio de Janeiro, trecho de seu diário de viagem.
Já deu.
Vamos acabar logo com essa pequena digressão sobre o sentido da vida pela cabeça de Albert Camus; tudo começou pela leitura de O estrangeiro. Meursault filho da puta! E, daí, para Nelson Rodrigues, décadas em semana.
Foda-se essa divagação, não fará diferença na vida de ninguém.
Mas também não é culpa minha.
Esse é o problema dos livros, eles nos transformam. Plantam dúvidas até então inexistentes, fazem-nos pensar demais. Demais. Desnecessário tudo isso. Fazem-nos viver muitas vidas infinitamente. Como se fôssemos imortais. Dizem uma coisa querendo dizer outra. São fantasiosos. Outros mentirosos. E os demasiadamente verdadeiros? E ficam sempre a reviver o drama humano, suas tragédias. E ficam sempre a nos distrair da vida com as suas jornadas de heróis. E nos fazem acreditar que o amor é eternamente lindo.
E gastam nosso tempo finito.
Enquanto tudo gira ao mesmo tempo.
Pra quê?
E eu tenho mais o que fazer. Acordei mal-humorado também.
Não estou a fim de escrever crônica, de escrever nada. Vou jogar na Mega-Sena e fazer churrasco. Assim, em vez de ficar dando voltas, lembrando daquele velho mal-educado de Santos - me deu um foda-se o dito-cujo - vou logo resumir tudo para encerrarmos toda essa ladainha de sentido da vida. Você, se quiser, que fique pensando, problema teu, não meu! Ele me mandou cuidar da minha vida! Velho mal-agradecido, rabugento e insensível. Deveria se chamar Meursault o desgraçado. Foda-se você também velho ranzinza, embora ache que você já deva estar morto. Enterrado. Virou pó. Foi a última vez que você apreciou a vista da natureza, não foi? Nem venha querer puxar meu pé de madrugada porque desenho o teu rosto numa folha - lembro-me de cada risca velho lazarento - coloco você debaixo do preto-velho e acendo o incenso do capeta. Nem venha!
O homem se revolta; sozinho.
Respira.
Foi assim: por causa desse maldito livro, eu me botei a pesquisar e ler, ver as obras que ele escreveu, a sua filosofia em forma de literatura e descobri que Camus esteve no Rio de Janeiro (diários de viagem), teceu comentários sobre o trânsito e foi num terreiro de Macumba. Lembrei-me de Nelson Rodrigues - a vida como ela é - Será que Camus conversou com ele? Não, nunca conversaram, estava escrevendo Dorotéia, a prostituta que perdeu o seu filho e foi para a casa de suas primas para abandonar a sua profissão; para tanto renunciou à sua beleza.
A vida como ela é, com ou sem sentido.
Estou liberado, agora, para o churrasco e para escrever sobre a festa em homenagem a Nossa Senhora do Bom Sucesso em Gonçalves, Minas Gerais, ou sobre as memórias que uma garrafa de vinho me trouxe ontem, o alentejano, Monte do Pintor; rótulo consumido pelo português titular do escritório onde iniciei a minha verdadeira jornada prática no Direito.
Talvez qualquer outro assunto que um livro me tropece sem avisar.
A maldição da curiosidade.
Comentários