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Vamos ouvir Ray Conniff?

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura


A paixão inspira; a disciplina a perpetua.


Estou preocupado com esse trem de escrever crônica todo final de semana. São tantas as tentações no meio do caminho. São demais as intercorrências a nos afastar daquilo que chamamos de compromisso. Não! Vou parar por aqui. Ninguém merece uma crônica tardia de domingo nessa onda incentivacional. Era sábado o seu dia. Conversei comigo mesmo e fechamos para o dia seguinte, afinal estamos ainda no final de semana.


Comentei hoje com a minha filha que precisaria começar aos sábados para terminar no domingo. Já antevia que eu a escreveria no limite. Fui buscá-la na casa de sua amiga. Como é bom ver nossos filhos na adolescência. No almoço fui escalado para fazer Carbonara. Passei praticamente o dia todo cozinhando, entre paradas aqui e ali o domingo vestiu-se de sábado.


Eu não iria escrever nada. Fui atrás do calhamaço de escritos do meu pai. Era tão simples. Bastavam algumas linhas e logo transcrever o seu texto. Pois é. Logo que abri o armário lembrei-me de que tinha levado tudo para o escritório. Sem perceber, as capas dos discos que ele colocava para ouvir me vieram à lembrança, Gonzaga, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Vinicius de Moraes. Pronto, há quanto tempo não o ouço.


"São demais os perigos desta vida para quem tem paixão", logo adaptei para as primeiras linhas da crônica. Mas é de "Regra Três" que gosto mesmo. Não é uma música só para bem amar. É um mantra que adoto em minha vida para diversos assuntos. Como este final de semana, já o segundo que a crônica fica para o final do dia. A vida avisa. A vida sempre avisa. Podemos não perceber, mas os sinais vêm e vão. Quando a intensa paixão oscila, é a disposição de amar, de um propósito maior, que nos alinha.


Ray Conniff! Tinha um disco dele também. Depois de mim e da minha irmã, não lembro de ninguém perguntando vamos ouvir Ray Conniff ?! Foi o tahine. Foi o molho de tahine que roubou o tempo da crônica. Já há algum tempo no armário resolvi fazê-lo. É simples, mas eu não tinha ideia dos ingredientes.


E eu já não tenho nada a escrever.


Em vez do domingo com o poeta pai, o domingo do poeta Vinicius:


"Soneto de um domingo


Em casa há muita paz por um domingo assim.

A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...

Esqueço de quem sou para sentir-me pai

E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

Um relógio bater, e outro dentro de mim...

Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai

Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai

A despeito do vento e da terra que é ruim.

Na verdade é o infinito essa casa pequena

Que me amortalha o sonho e abriga a desventura

E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:

Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena

Levando apenas esse pouco que não dura."


Vou descansar, já que o domingo nos avisa que amanhã é segunda-feira.







 
 
 

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