o sentido da vida
- Carlos Camacho

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Atualizado: há 8 horas

Qual o sentido da vida?
Vocês não fazem ideia das quantas voltas dei esta semana para começar a crônica com esta pergunta e colocar esta foto do Nelson Rodrigues para a grande abertura. Como se não houvesse mais nada para fazer. Como se estivesse num retiro espiritual no Tibete com os monges budistas; tempo sobrando para só meditar e ouvir tambores espirituais evocarem o nada absoluto.
O nada absurdo.
Certeza que foram os incensos que trouxe de Ubatuba.
Idas e vindas de pensamentos; reflexões que me assaltaram no café da manhã, durante o jornal da Band e olhando para o espelho do elevador durante cinquenta e um segundos. Na descida. Jamais se perguntem qual o sentido da vida defronte ao espelho olhando para os seus olhos. Não compliquem a vida sem necessidade. Empurrem-na morro acima como a Pedra de Sísifo toda vez que ela despencar novamente.
Bom, exceto que se preste para escrever uma crônica.
Tudo piorou depois que decidi na segunda-feira à noite que este seria o tema da crônica. Porque eu naturalmente não estava preparado para nada do que viria. Pior, tampouco passava por uma crise existencial que justificasse todo o processo incendiário. Era só não ter lido o primeiro parágrafo.
Eu sei que a curiosidade vos alimenta.
Vou contar como tudo começou.
Melhor, vou transcrever o parágrafo perturbador que me levou a ler todo o livro.
"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J'ai reçu un télégramme de l'asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C'était peut-être hier."
Por que citar em francês se você não fala francês?
Pois é, esta foi uma das voltas. Porque eu, que nunca tive vontade de aprender francês nem ir a Paris, pela primeira vez cogitei de incluí-lo na lista. Só para ler "O Estrangeiro", de Camus, no original. Até então, gostaria de conhecer a região da Normandia, no máximo. O Gustão, o Edson e o Gulino já falaram bem de lá. Esses dois últimos, sacanas, me mandaram foto deles no "The Bombardier" tomando uma Guinness.
Dando risada.
Ordinários por excelência.
Eu já tinha lido "A Peste" dele, mas nada parecido com o que me sucedeu depois que acompanhei alguns meses na vida de Meursault, desde quando recebe a notícia da morte de sua mãe até ser condenado à morte por ter assassinado um árabe na praia. A França aboliu a pena de morte oficialmente em 1981 e a última execução se deu em 1977, até isso fui ver, mais uma das voltas de que falei no início.
Pois bem. Ler o livro foi a melhor parte, muito bem escrito e com uma narrativa envolvente que nos draga para o absurdo que é a sua vida. A sua honestidade. A sua indiferença. Simplesmente impossível de parar de ler. Num dos trechos deixa de almoçar na Celeste porque tinha certeza que lhe fariam perguntas...Odeio que me façam perguntas. Neste momento lembrei-me de um episódio, ainda jovem, muito jovem, em que fui puxar conversa com um velho que estava sentado na mureta beira-mar olhando fixamente para o píer. Essa foi outra volta, desta vez ao passado...mas fica para um outro dia porque há sério risco de que não consiga terminar a crônica tal qual planejara.
Já ultrapassamos dois minutos de leitura e, na verdade, eu mal comecei a crônica para lhes explicar como fomos de Camus a Nelson Rodrigues...tampouco as reflexões que se seguiram.
Difícil, viu.
Vamos todos dar uma volta e eu continuo na próxima!



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