Deu-se tudo num intervalo de sete dias, de Camus a Nelson Rodrigues. De segunda a domingo da semana passada vi-me estrangeiro em meu cotidiano que se orgulhava previsível. Não havia até então um livro em meu caminho; já numa segunda-feira. Passaram-se, na verdade, décadas de pensamentos. Ora sobre cavalinhos de carrossel, ora em loopings em carrinhos nas montanhas russas, da melodia infantil aos gritos eufóricos.
Em voltas.
Como o creme girando sobre a casquinha do sorvete do McDonald's.
Não se aventura da França existencialista para os subúrbios do Rio de Janeiro em linha reta como se fossem duas coordenadas geográficas. A indiferença extrema de Meursault, personagem central de O Estrangeiro, é utilizada por Camus para ilustrar a ausência de um sentido absoluto na vida; como ele entende. Quando nos perguntamos - nalgum momento, sobretudo diante de crises - qual o sentido da vida, o mundo se mostra irracional e silente. Não há resposta. O universo não nos responde e nos deparamos com o absurdo de nossa existência.
Uma vida inteira sem um sentido absoluto em si mesma.
O Simba, este acima, filhote muito fofo de Golden que minha filha foi conhecer na casa da amiga dela, jamais terá essa divagação sobre o sentido de sua vida.
A vida de Meursault nos instiga: qual o sentido da vida se dela não temos controle e ao final morreremos? Trabalho medíocre, relações superficiais e um vagar pelos seus dias mundanos como se fosse estrangeiro neste Universo. Eu só descobri as reflexões filosóficas de Camus depois do livro. Quis entender, afinal, quais seriam as suas reflexões para além do incômodo que senti quando acompanhei uma parte da vida do personagem. Em dado momento, lembro-me de ter percebido que ele só participa de acontecimentos que vão se sucedendo à sua volta, perturbadoramente como se suas ambições e paixões fossem completamente inexistentes.
Irrelevantes.
Indiferentes.
Da notícia da morte de sua mãe até assassinar o árabe por uma picuinha que nem era sua. Culpa a luz do sol pelos tiros que disparou.
Nada lhe interessa apaixonadamente, como se fosse desnecessário ter bons amigos, um trabalho de que nos orgulhemos ou uma mulher para juntos comer, rezar e amar. Ele jamais teria montado quebra-cabeças de Istambul com as filhas dele como acabo de fazer há pouco numa das pausas desta crônica. Para que recriar, peça a peça, dia a dia, tentando e errando, entre frustrações e vitórias, se já conhecemos a imagem final? Os familiares e amigos nos vendo deitados como se fôssemos um quebra-cabeça montado.
O mistério enfim solucionado.
Perdoem-me. Percebo também o ar grave e abstrato. Hora de espairecer. Eis uma das voltas a que me referi na crônica anterior: o velho sentado à beira-mar olhando fixamente para o píer e eu, jovem, muito jovem, o observava há algum tempo sem entender o que tanto ele olhava se nada de extraordinário ou trágico eu pudesse igualmente compartilhar.
Nada além do mar.
Nenhuma mulher bonita.
Ninguém se afogava.
Santos. Lá estava para o casamento de um amigo e no final do dia seguinte levanto da mesa do quiosque para olhar o mar. O velho em posição de pescador, sem vara nas mãos, chapéu na cabeça, tampouco aquele olhar de esperança de que o peixe em qualquer momento será fisgado. Não me aproximo muito, o suficiente para que uma conversa fosse possível. Olho pra ele. Ele para longe.
Olho para o píer, para o velho, para o píer. Três vezes.
— Boa tarde! Silêncio. Se ele ouviu, não me respondeu.
E se segue uma conversa que não saberia classificar como diálogo ou monólogo. Mas hoje, nesta crônica, já não tenho tempo de reproduzi-la.
Começo a próxima sem rodeios, prometo.
Já se passaram três minutos.
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