Certo seria que desde logo eu adentrasse na crônica.
Antes, contudo, para não perder a minha irritante obsessão pela vírgula, vos destaco: a ausência de vírgula indica mesmo uma conversa agradável, uma conversa leve, um bate-papo em que podemos falar sem anteparos. Sem pretensões; falar não para sermos julgados, apenas para sermos ouvidos.
Não é fácil. Fosse “Uma conversa, amiga”, a crônica já teria seu desenlace definido. Seria uma história muito boa que uma amiga queira lhe contar algo do que propriamente conversar. Eu gosto de conversas amigas. Para quem fala demais como eu, que gosta de compartilhar experiências, não é fácil. Tenho, ultimamente, me dedicado bastante a não dar soluções ou receitas quando ouvimos problemas.
A conversa amiga num primeiro momento não quer conclusões ou decisões; quer ser ela própria, num ritmo só dela. Gosto demais do verbo italiano “sentire”. Ouvir em português. Na primeira conjugação do indicativo presente: “Io sento”. O próprio verbo sentire nos dá a ideia de sentir. Ouvir é sentir. Sentir aquele com quem conversamos. E, para tanto, sento, leve e calmo, para ouvir o que meu amigo, minha amiga, esteja falando.
Uma conversa amiga precisa da vírgula no lugar certo.
De parcimônia com o ponto-e-vírgula. E muita, mas muita, cautela com o ponto final; aquela sentença que encerra uma verdade absoluta. A conversa amiga boa é aquela conversada. Mas pode ser escrita. Quantas esperanças foram retratadas em desespero por soldados em trincheiras; entre escritores ou entre amantes? Sério, que eu lembro de cartas nestes tempos? Não, não quero voltar no tempo. A tecnologia me fascina. Mas elas tinham uma vantagem indiscutível: era possível falar sem interrupção, até que nossos sentimentos tímidos aos poucos fossem se revelando sem a necessidade de confirmação; de interjeição.
Talvez uma conversa amiga fosse como escrever uma carta.
Um por vez.
Um desabafo sem interrupção.
Nunca saberemos quanto tempo foi consumido entre as palavras escritas. Entre “aguardo” e “ansiosamente” algumas horas se passaram? Segundos talvez? Dias para o soldado que se viu obrigado a lançar granadas ou recuar. Temos hoje a maravilhosa facilidade da comunicação. É incrível. Mas já estranhamos quando alguém nos liga ou quando ligamos para aquele amigo com quem não falamos há algum tempo. Eu tenho o péssimo hábito de sair ligando para meus amigos depois de algumas taças. No mais das vezes em horários inoportunos.
Estou me policiando; mas não raro sou recebido com “tá tudo bem com você”?
- Sim, tudo bem, era mesmo para trocar uma ideia amiga, saber como vão as coisas, ouvir a tua voz de sono no Domingo ou até para combinar de conversarmos sobre como estão indo os teus Sábados, tuas terças e quintas.
Vale uma conversa amiga entre nós mesmos. Não, não entre nós; entre você e você. Entre eu comigo mesmo. Não é das mais fáceis. Sentir a nós mesmos talvez seja um dos grandes desafios de nossa existência. Conversar com uma taça de vinho? Pode ser. Desde que a ela não atribuamos exclusividade. Eu gosto de conversar enquanto escrevo crônicas.
Tenho um amigo que conversa consigo quando trabalha.
Outro quando pilota avião.
Chega de conversa fiada.
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