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Summer

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 23 de jan. de 2021
  • 3 min de leitura


Com as meninas para as mini férias pandêmicas veio a Summer. Uma Golden de sete meses que não compra briga com outros cachorros. Ela é aquela pessoa simpática que chega para uma boa conversa, faz piadas e não cai em provocações. Quando criava Fila Brasileiro sempre me frustrou não poder passear com eles. As poucas vezes que tentei foram um desastre só. Custam a obedecer, são fortes e encrenqueiros.


São guardas.


Não é uma raça para ficar passeando no bairro.


Com a Summer já fui ao mercado e ao posto de gasolina. Foi junto nos pequenos passeios. Enquanto comíamos um pastel e tomávamos um açaí ela lá chupando gelo. Mas é meio doidinha, já até pulou de uma sacada de uns dois metros; três talvez. Estatelou no chão. Chorou, mancou e, alguns raios x depois nenhum osso quebrado. Nenhuma pata torcida. A foto aí de cima tiramos em Águas de São Pedro, depois que ela mergulhou nas águas da praça. Adora dar uma mergulhada; pai ela adora água. Fui ver. A raça como conhecemos hoje surgiu na Escócia, do cruzamento dos spaniels com os retrievers então existentes, para que o cão pudesse resgatar as aves que caíam na água numa época em que o lazer era caçar.


Ou seja, cruzaram um caçador com uma que gostava de água.


Ou vice-versa.


Isso explica o pulo dela nas águas de São Pedro. Muito conhecida pela sua vontade de agradar, de ser querida, Ela busca um entrosamento, não uma confusão. Crônica interrompida por um spaghetti al pomodoro e umas taças de vinho, estamos de volta. Descobri um chef chamado Massimo Bottura cujo restaurante fica em Modena, na Itália, michelado e tal. Vídeo vai, vídeo vem, caí numa série de vídeos que ele fez em casa durante a pandemia. A novidade? Depois que ele coloca orégano fresco e alho (sem o miolo) no molho, ele os tira. Nada de cebola no molho. Usou a mesma técnica do Carbonara: com a água da fervura do macarrão envolve a pasta no molho com o amido da massa.


Devoramos.


Pela primeira vez em minha curta jornada de cozinheiro doméstico acerto as porções. Até então, toda vez que eu abro o pacote de macarrão me pergunto sobre a quantidade ideal para todos. Se faltar você é um grande muquirana que economiza alguns Reais. Se sobrar, você é um exagerado. Sei que macarrão na geladeira é uma reserva estratégica, mas no dia seguinte talvez seja dia de molho branco.


Acertar a quantidade me fez achar que eu possa prever o futuro.


Enfim, nenhum fio de massa restante na panela.


É impossível dissociar a vida em família da cozinha.


As gerações se comunicam pela panela.


Lembro-me de todos da família sentados na casa de minha avó materna comendo pimentão recheado. A travessa era colocada sobre a mesa e somente um deles continha uma azeitona. Cidinha misturava todos e ela mesma não sabia quem seria o premiado. Pausa para o vinho. E na mesa italiana de fala alta e exagerada um deles bravejava de repente, com orgulho, que a azeitona verde estava em seu pimentão. Quando passo rapidamente a minha vida vem naturalmente o orgulho das filhas que tenho. Como são.


São a azeitona verde de minha jornada.


Desejar ser o que se é, digo, perceber que poucas alterações deveriam ter sido feitas, me conforta em minhas reflexões sobre o que, afinal, é viver. As ervas e as raízes que temperaram a minha vida eu as uso para dar às minhas filhas um sentido de continuidade. Não é diferente contigo.


Massimo fala de sua cozinha como se contasse uma história, um romance passado em sua região...a cozinha assim ganha uma dimensão de existência e de uma tal significação que experimentar um tutu, um risoto ou um churrasco nos transporta para outro tempo; esse mesmo que nos forjou.


Pausa para mais uma taça de vinho.


Cães e mexidos são uma boa viagem pelo tempo. Assim como um Golden jamais deixará de gostar de água. Assim como um Golden jamais será agressivo. Nós jamais deixaremos de ser o que vivenciamos à mesa.


Pausa para mais uma taça de vinho.


Pausa para deixar minhas panelas de ferro prontas para mais um prato. O que teremos amanhã antes do suspiro final? Uma refeição.


E nunca saberemos qual foi a última; na dúvida não deixe de salpicar um pouco de pimenta.

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