Pega na chave inglesa
- Carlos Camacho

- há 2 dias
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Atualizado: há 2 dias

Não há a nada a dizer.
Nada de interessante, absolutamente nenhum insight que mereça uma crônica. Tudo se desenvolve ordinariamente. Não chega a ser um tédio. O café. O trabalho. Stress. O final de semana. O futuro, as metas. O presente embalado de surpresas. Chopp com amigos. As notícias matutinas e como pano de fundo a série Netlfix Mr. Mercedes, baseada na trilogia de Stephen King. Muito boa, exceto pelo problema que temos vontade de ler os livros. Mais demanda aleatória dentre tanta que criamos para ter menos tempo de observar a vida.
A coifa precisa ser trocada. O triturador está fazendo falta. Armários do corredor precisam ser organizados. A panela de pressão soltou os parafusos. Volto a olhar sítios. O azeite não filtrado de um litro que eu trouxe da viagem já está na metade. Remédios de equilíbrio sistêmico seguem a sua programação normal. A pedra de afiar está prestes a quebrar. Vinhos precisam animar a adega. A mesa de madeira precisa ser lixada e tratada com cera de abelha. Manutenções caseiras são as tarefas mais irritantes que um ser humano pode ter.
A bomba da piscina quebrada. A grama alta com tanta chuva. O vazamento da torneira. A lâmpada queimada e o ar-condicionado pedindo revisão anual. Algum parente te liga para fazer churrasco no final de semana e você precisará trocar a grelha. Penso bem se sítio será o paraíso ou o inferno. Dá pra ler a trilogia do Stephen King com o tempo das manutenções caseiras.
Fui tomar um chopp com o Rafa Libanori, cheguei cedo para pegar mesa e me recusei a ficar no celular. Quase meia hora olhando tudo passar, dizendo aos garçons a cada 5 minutos que aguardaria meus amigos para tomar mais um chopp. Os carros passando. Os carros parando. Os empregados chegando de moto, de bicicleta e andando para atenderem os clientes. Uma delas depois até parou para conversar conosco, saiu de Curitiba, terra abençoada pelo frio, para Limeira escaldante, cidade onde as minhas tarefas caseiras me perseguem irritantemente.
Toda vez que alguém sai de Curitiba eu não resisto a saber suas razões.
-Sair de Curitiba, como foi?
-O pastor da Igreja do meu amigo é muito bom. Vim para conhecer, estou aqui há alguns meses, arrumei um bico.
-Mas é da mesma Igreja?
-Sim, mas ele é diferente.
-Valeu à pena?
-Não me arrependi, está me ajudando muito. Aqui é um bico na verdade, eu trabalho mesmo com vendas. Sou muito boa vendedora, vocês perceberam né?


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