sentado é demais, me parece.

19 de abr.
3 min de leitura
Atualizado: 20 de abr.

"Um dia...Pronto!...Me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: Que me importa?
O diabo é deixar de viver."
Mário Quintana
"Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar"
Raul Seixas
O seu velório foi difícil. Entendo o último adeus, as preces e as lembranças da vida vivida. Saudades explodem. Os familiares sofrem. Os amigos recusam-se a acreditar e passam a contar as boas histórias. Pus-me a refletir sobre a razão de tanta tristeza. Sei: não há razão. Dói. É difícil. Lembrei-me do velório do meu pai. Eu chorei. Também tive a sensação de que ele merecia, nós merecíamos, mais algumas risadas e algumas prosas a mais. Depois passei a lembrar do que ele viveu e não da porção que ele deixou de "viver".
O que me confortou à época foi um sentimento relativamente singelo: estava tudo certo, nada deixou de ser dito entre nós. É clichê, mas é libertador: digam hoje, e não amanhã, como as pessoas que nos são queridas são importantes. Ainda que com uma piada.
Deveriam inventar um jeito de acomodar o corpo sentado.
Eu não queria voltar ao tema, mas as minhas crônicas são, antes de tudo, uma conversa comigo mesmo. São um pequeno disfarce para as minhas inquietações.
Nos dias seguintes, saí com as minhas filhas, uma delas já motorista; não resisti. Eu não quero velório, quero festa! Vou pensar em alguma coisa para fugir à regra e voltaremos ao assunto. Enterra-se o corpo e todos vão para uma boa comemoração. Não gostaria de me olhar de cima, estático, inerte e vendo todos se lamentando com aquele desejo de quero mais. Como se eu precisasse ficar mais um pouco quando eu já estou longe voando por aí.
Nalgum momento a minha voz irritante precisa se dissipar.
Eu não gostaria de ver as pessoas que amo sofrendo, ainda que por alguns dias. Derramando lágrimas como se tivesse deixado algo faltando. Como se todos os bons momentos fossem turvados pela tristeza indignada de que não podemos partir; em paz. Lógico que eu não influenciarei as emoções de ninguém depois que me for. É que desta vez foi mais difícil do que o velório anterior; do pai do meu amigo. Eu passei alguns minutos ao seu lado, mas lembrei mesmo dos churrascos que fizemos: Carlão, tá enrolando pra soltar a picanha? Dos cafés da manhã, de seu esforço para que fôssemos para a praia passar alguns dias.
Recuso-me a sofrer pela ausência de quem se foi e logo passo a me lembrar deles sorrindo. Foi assim nos últimos dois velórios, ambos vieram a mim em momentos bem específicos; sorrindo. Curiosamente, em churrascos. São raras as pessoas carrancudas e sistematicamente mal-humoradas das quais não teremos um momento de sorriso para sobrepor àquela face mórbida de caixão.
Jesus.
Filhas, eu vou puxar o pé de vocês com a minha mão gelada se vocês insistirem no sofrimento por mais de uma semana. É muito, três dias. Desabem por três dias e depois vão viver a boa vida. Nunca nos afastaremos completamente; já estarei espalhado por aí. Como o poema do início, morrer não é o problema. Triste mesmo será o dia em que deixarmos de viver e andar só porque temos duas pernas. Morte mesmo é vagar pela vida, não depois dela. Este problema eu nunca tive. Tenho sérios motivos para acreditar que viverei até o meu último suspiro.
Vou dar um grito no meu velório se estiver muito baixo-astral.
É por aí.
Ah, se a funerária permitir, coloquem-me sentado em vez de deitado. Brincadeira, vão achar que vocês são malucas.



Comentários