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Kafka no Carro Véio

Foto do escritor: Carlos Camacho
Carlos Camacho
19 de set.
2 min de leitura


Quando eu o vi chegando à mesa, não acreditei.


Não pode ser, é o Kafka!


Sim, é ele. A mesma orelha. Chamei o Alemão, conhecido meu que trabalha lá, e perguntei quem era, nunca o tinha visto ali apesar de ser habitué.


— Ah, você diz um magro?

— Peraí, vou te mostrar a foto. Abri no celular a clássica, aquela de rosto inteiro em preto e branco. Tenho testemunha.

— Ah, é o meu irmão!

— Teu irmão, você é irmão do Kafka? Não pode ser.

— Na verdade eles são gêmeos... somos dezoito no total.

— Como assim? Dois Kafkas?

— É, mas o outro não está aqui hoje.

— Posso falar com ele?

— Lógico, vou chamar...


Expliquei-lhe tudo. Achou inusitado. Riu. Consegui a foto já avisando que seria tema da próxima crônica e ele se inscreveu no Instagram de Antes Que Eu Me Esqueça. Nesta vida ele se chama Alex, brasileiro, simpático e sorridente. Não exerce trabalho burocrático e deixou a sua Paraíba natal para trabalhar em São Paulo. Como não tinha lido os seus próprios livros, lhe prometi, ontem, sábado, um box com algumas obras.


Tomamos mais algumas, os outros garçons vieram à mesa perguntando a razão de tanto auê, conversamos mais um pouco com o Alemão e, depois da caipirinha de caju com Salinas, a melhor da região, a caipirinha, fomos embora.


Terminou a noite em que conheci Kafka no Carro Véio, 12 de setembro de 2026.




Quatro dias depois, na quarta-feira, promessa cumprida: O Castelo, O Processo e A Metamorfose; quando lhe entreguei este último acrescentei: comece por este aqui, consegue terminar até a próxima sexta-feira para batermos um papo, aí consigo dar um tchan na crônica? Lógico que me veio a imagem da Carla Perez dançando no Carro Véio ao lado do Kafka mas não falei nada, descartei.




Sábado hoje, dia 19. Será que leu? Fiquei de falar com ele, mas depois pensei que o encargo seria despropositado porque colocaria Kafka contra suas próprias convicções. Entendi por que ele não admitiu ter lido seus próprios livros, deixou instruções claras ao seu amigo e biógrafo Max Brod para que queimasse seus manuscritos acaso morresse. Quase todos os seus livros foram publicados postumamente.



Perceberam como a crônica perdeu força desde o início até o último parágrafo? Começou com um evento inusitado, criou a expectativa sobre o que Kafka diria de seus próprios livros quando fosse encontrado e, num único parágrafo, eu me perdi? Sabia que precisaria de um tchan para conduzi-la a um final mais interessante. Vou tentar de novo, deixe-me tomar um café e retomo no próximo parágrafo.



Vou ao Carro Véio hoje ver se algo acontece e depois termino a crônica.


Cheguei há pouco do Carro Véio. Eu já não sei de mais nada. Sentamos, pedimos o de sempre, a cerveja chega irritantemente — como sempre — gelada em menos de 90 segundos. Papo vai, volta. Levantei-me da mesa.


— E aí? Tudo bem? Leu?

— O quê?

— A Metamorfose?

— Não estou entendendo...

— Ah, não pode ser...






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