... apenas abro as janelas do tempo e deixo o verbo falar...
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O Deus Oculto no Canto do Córner
Carlos Camacho
há 1 dia
2 min de leitura
Foto: Acervo Gazeta Esportiva
Cheguei ontem dos anos 90.
Às vésperas da eleição.
Lembrei do Monza cinza do meu pai e de como era a vida sem mi, mi, mi.
Estava ouvindo a história do treinador de boxe do Zezão, o Monstro. Após ler a primeira frase — Muay-thai é esporte de maloqueiro! Aqui só treinamos lutadores segundo as regras do Marquês de Queensberry, senhora, lhe atribuí uma voz que me acompanhou por uma semana durante a leitura de Deus Oculto no Canto do Córner, primeiro livro de Milton Gustavo.
No começo patinei um pouco. O afã, talvez, de caracterizar o treinador (não sabemos o nome dele) traz algum excesso de reclamações que cansa o leitor. Meu amigo, minha amiga, a partir da página 52, quando o Monstro começa as lutas de ranqueamento para as Olimpíadas, você não para mais, é justamente quando as coisas começam a acontecer que o treinador reclama menos. Depois, pensando sobre o livro, fiquei em dúvida se foi proposital ou não. Nunca saberei. Como tem que ser.
Monstro é o Brasil que desistiu de ser campeão. Essa foi a sensação que tive quando terminei de ler o livro. Um país que precisa lutar sem parar, mas que se acomodou antes da hora. Antes de se tornar o gigante do tamanho do nosso potencial. Há muitas cenas hilárias, como a bunda da coroa na praia, o acidente sexual do Monstro às vésperas de uma grande luta, já com o empresário Larry King, e a entrevista para a Globo.
O treinador pode ser visto como as nossas gerações anteriores, que lutaram bravamente por um Brasil melhor (lutou com a mão quebrada) e, depois, apostaram na geração seguinte (o Monstro), que acabou por decepcionar; desistiu. Enfim, o livro é tão brasileiro que está longe de ser só a história da vida de um treinador de boxe. Tem o sonho de ser doutor. Tem pagode. Tem Velho Barreiro. Tem churrasco. Tem sacanagem. Tem fé. Tem miséria, riqueza e jeitinho. Tem muita gente decente e trabalhadora. Tem meritocracia.
É simplesmente incrível! Eu não entendo nada de boxe. Sabia que Éder Jofre tinha sido campeão mundial, e só. Nunca tinha lido nada a seu respeito, o que eu prontamente tratei de remediar. A história me lembrou um bordão que sempre me incomodou: Brasil, o país do futebol. Bosta nenhuma: nem país do futebol somos mais. Todos os demais esportes estão à deriva e seus campeões brilham por mérito próprio; não por política pública eficiente.
Vale um trecho:
"Ele ouvia tudo calado, sem mostrar cansaço ou dar bandeira de nada: só obedecia. Quando falava, era sempre muito baixo e com voz fina. Pedi que ele engrossasse a voz e falasse alto. Ele tentou, mas ficou pior. Parecia uma mulher imitando um homem. Mas mesmo isso se treina. No fundo, a voz fina dele era vergonha. Vergonha daquela cara amassada e da situação de pobreza. Foi engrossando a voz à medida que melhorava de vida. Nos últimos anos de carreira parecia o Nat King Cole."
Milton, sabemos que você está escrevendo o segundo.
Volto para 1844, O Conde de Monte Cristo.
Tenho certeza que antes de concluí-lo você já o terá publicado.
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