Aposto na Mega-Sena; não na gratidão.
A ingratidão é a regra.
Se e quando um dia lhe agradecerem, considere um bônus. Fazer ou deixar de fazer algo pela graça verdadeira do reconhecimento, obrigado sou muito grato, obrigada sou muito grata, é semear a frustração que virá pelo silencio dos próximos dias, da próxima década. Isso quando não acharem que você não fez nada além do que deveria; portanto, não há nada a ser dito.
Nada a agradecer.
Nada a reconhecer.
Talvez essa tenha sido uma das mais duras lições que eu tive que aprender. As pessoas como elas são; não como gostaríamos que fossem. Já faz tempo que eu não movo um peão movido pelo desejo de reconhecimento, dessa moeda sentimental maldita. É como jogar na Mega-Sena; eu sei que não serei sorteado. Ambas têm a mesma probabilidade.
A frustração vem dos filhos. Dos pais. Dos amigos.
Menos dos inimigos.
Confiar demais nos amigos. Vice-versa. Eu confio, mas nunca me perguntei se era demais ou de menos; quais seriam os graus de confiança, se é que existem. Não consigo dizer hoje qual seria exatamente o ponto de equilíbrio dessa confiança mútua. Sei que nada nesta vida é absoluto; há sempre um limite além do qual não iremos, não avançaremos.
Filhos matam pais. Amigos fazem delação premiada.
Os inimigos são tão valiosos quanto nossos amigos. Lembram-nos sempre que há um estado de alerta necessário para sobreviver. Às vezes eles dormem conosco; a soberba não detectada que nos derrota sem nenhum esforço do adversário. Podem estar ao seu lado e compartilhar da mesma garrafa de vinho.
Durante um tempo uma dúvida me intrigou sobre a história da Segunda Guerra: em que ponto os aliados passaram a ter chance de derrotar os nazistas, por que não detiveram antes aquele maluco? Para mim, com Barbarossa - nome da operação militar de invasão da União Soviética. Quebraram o pacto de não agressão Ribbentrop-Molotov. Stalin confiou demais em Hitler, que, por sua vez, não esperava a resistência insana em Leningrado, hoje São Petersburgo, por 872 dias. Subestimar o oponente nos joga na vala antes da hora.
Recentemente, após o falecimento do meu tio, irmão do meu pai, o artista, falo dele algumas crônicas pra trás, surgiu uma demanda inesperada; não esperar gratidão ajuda. Ouvir é sempre o primeiro passo. Analisar, o segundo. Conversar e, por fim, decidir. Não deixar a raiva dominar o cenário e nos cegar é a verdadeira arte. A vida como ela é. Para um descendente de espanhol como eu, que deixou por algum tempo que as emoções invocassem tempestades, foi uma das maiores reflexões que o tempo me propiciou; foi difícil. Ainda é. Ao menos eu as farejo a alguns quilômetros de distância.
Como a chuva que vem de Piracicaba em minha direção.
Esta e a crônica anterior estão ácidas.
A vida como ela é.
Nelson Rodrigues, contenha-se.
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