Nada a ser dito. Só o que deve ser ouvido.
Semana marcada pelo silêncio reflexivo substituindo palavras que verbalizam desvairada e freneticamente o bom caos em que vivemos.
Diuturnamente.
O silêncio é uma resposta poderosa quando o caos se nos apresenta caótico.
Ouvir silenciosamente.
Ouvir o silêncio absoluto da natureza.
Ouvir no silêncio mágico Vivaldi.
É o que faço agora, uma obra maravilhosa dele, o Padre Ruivo - como descobri depois - cujas composições passei a semana inteira ouvindo. Num quase-silêncio. Chama-se Nisi Dominus, RV 608, cum dederit, que enaltece o Salmo 127, tudo será em vão sem a bênção do Senhor; objetivamente. Intrigado pelo número entre os nomes das músicas, não poderia imaginar que é a posição do catálogo que melhor organizou as suas mais de setecentas obras. Em alemão significa Catálogo de Ryom (Ryom-Verzeichnis). Cada grande compositor tem um catálogo próprio, como K para Mozart. Quem faz o melhor trabalho leva seu nome no catálogo. Justo.
Como seria ficar um final de semana sem dizer uma só palavra?
Sim, lembro-me do filme As Mil Palavras. Eu nunca fiquei sequer duas horas sem falar quando acordado. Converso comigo mesmo em voz alta. Como manter as nossas atividades sem parecer um estúpido mal-educado? Sim, porque, em princípio, não poderíamos dizer nem por favor e obrigado. E, se a decisão for repentina, dificilmente aprenderíamos os sinais apropriados.
Qual foi o tempo máximo que vocês ficaram em silêncio absoluto?
Vocês sabem?
Estou seriamente pensando em ficar uma semana inteira sem falar absolutamente nada; só para ver como é. Talvez seja melhor escolher as férias e uma cabana para evitar as situações constrangedoras. Como perguntar onde fica o banheiro sem saber libras. O silêncio importa em prestar mais atenção ao nosso redor. Basta olharmos as placas no supermercado em vez de perguntar.
Eu não poderia participar de um churrasco se soubessem que o meu silêncio é proposital. Um caderninho já com a frase escrita seria obrigatório: estou na semana que só ouço, não falo, não me perguntem nada. Estou aqui para ouvir, não para falar. Ontem estava num que durou dez horas; renovação espiritual. Certamente falei tudo que foi economizado durante a semana. Falamos mais quando a carne está espetada. Só para acertar o drink Mangiare, do já fechado Sballo, foram nove versões.
Imaginem quantas vezes eu perguntei, e aí como ficou?
Vivaldi deve ter ouvido mais do que falado durante a sua vida. Era padre num orfanato para meninas abandonadas e, asmático, substituia as missas pelas suas composições. Diziam seus opositores que tudo era uma farsa para se dedicar mais à música do que às preleções. Eu logo percebo que o foco de Veneza não deveria ser as gôndolas mas sim a Chiesa Della Pietá e o magnífico hotel Metrópole, que absorveu parte da construção do orfanato. Quando estive lá não ouvia Vivaldi. E eu que particularmente não via motivos para retornar considero voltar para assistir a um concerto.
Ai meu Deus, não me deixe cair em tentação, não estou preparado ainda. Já volto para concluir a crônica. Terei que ir ao supermercado comprar batata Asterix e limão-siciliano para fazer nhoque.
Algumas horas depois...
Bom, comecei a fazer o nhoque.
Uma vez, com faringite e calos nas cordas vocais, otorrino pediu descanso da voz por 14 DIAS!!!! hahahahaha pense na dificuldade. Ainda mais trabalhando na minha profissão.