"Vivaldi não compôs seiscentos concertos; compôs seiscentas vezes o mesmo concerto." Luigi Dallapiccola, compositor italiano.
Dediquei praticamente a semana inteira a aperfeiçoar e incorporar a inteligência artificial no escritório; o início do processo. Até para lidar com ela é preciso paciência. Precisamos treiná-la como faríamos com qualquer humano. Instalei o Claude em algumas planilhas e agora tenho um assistente especialista que, não faz muito tempo, eu teria de contratar. Fui a Piracicaba ver as Quatro Estações à luz de velas. Candlelight, grupo Fever; o Monte Cristo Quarteto de Cordas. Cheio. Lotado. Bis pedido em coro, palmas que não acabavam.
Eu não abriria o espetáculo com o verão.
Eu não sabia que o brasileiro gostava tanto de Vivaldi, de música clássica. Por vezes há um abismo entre as nossas crenças - premissas - e a realidade; erros de julgamento.
Desconfio agora que o fascínio nasce justamente disso: do incomum. Desejamos o que não temos. Nunca ouvi música clássica em bar e violão. Fosse Vivaldi feijão de sábado, ninguém pediria bis. Gratificante — essa é a palavra — é a única que serve: ter um espetáculo desses tão perto de casa. Longe de Viena, de Veneza, da igreja do Padre Ruivo.
Precisei de uma noite e de algumas dezenas de velas.
A acústica do espaço em que se apresentaram não é boa. Mesmo assim gostei da experiência. Digo logo, para não bancar o esnobe que finge que tudo foi perfeito. Acústica ruim, mas experiência excepcional. As duas coisas cabem na mesma noite, como cabem na mesma vida. Dois violinos geralmente fazem o mesmo movimento. O terceiro é a variante. Geralmente mais agudo; com destaque para aquelas em que um dos violinos dedilha.
Gosto mesmo é do violoncelo.
É ele quem segura a casa. É ele o alicerce, a viga, o pai que, não aparece na foto, mas sustenta a família inteira. O violoncelo é o chão por onde o agudo se atreve a voar.
Será que a inteligência artificial me compõe uma clássica baseada nas Quatro Estações? Capaz que componha. Capaz que saia até bonita, afinada, sem nenhum erro. Mas faltaria o erro. Faltaria o sujeito do violoncelo de olhos fechados meneando a cabeça no ritmo das notas. Na sexta-feira piracicabana, o arco que range, a vela artificial que finge respingar, o vizinho de cadeira que tossiu na hora errada.
A IA compõe o som; não compõe a noite. Pode ser que Vivaldi tenha escrito seiscentas vezes o mesmo concerto. Pode. Mas eu ouvi um só, naquela noite; e ele bastou. O mesmo concerto, escutado pela primeira vez por uma sala inteira que sabe pouco ou quase nada de música clássica, como fosse necessário entender para gostar.
É o que a IA ainda não entende: o milagre não é a obra repetida. É a primeira vez de quem ouve. Depois de ler a primeira versão da crônica, escrevi: Li, mas falta emoção. Obrigado, farei alguns ajustes manuais e te envio para que registre na memória.
Esta crônica foi escrita com 40% de participação de inteligência artificial. Ela leu todas as minhas crônicas para que aprendesse o meu estilo. Listou os principais assuntos que abordei ao longo desses anos.
Eu particularmente não gostei, da crônica.
A noite, ao lado dela; inesquecível.
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