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até virar estátua

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 10 de jan.
  • 2 min de leitura


2025 será então uma estátua.


Estará exposta em nosso museu de lembranças.


2026 podemos lapidar outra.


Daqui a pouco saíremos para as festas da virada aqui em Firenze. Para ver os fogos, lançados do alto da Piazzale Michelangelo, a Ponte Santa Trinita foi a escolhida; perto de onde estamos. Concertos ocorrerão nalgumas praças da cidade, como Santa Croce, Piazza Santissima Annunziata e Piazza della Signoria.


É nesta última, próxima ao Degli Ufizzi e ao A'll antico Vinaio, aquele panini danado de bom das filas, que fica Loggia della Signoria. Nela está a estátua do herói da mitologia Perseu segurando a cabeça da Medusa, esculpida em bronze por volta de 1550 por Benvenuto Cellini. Seu corpo no chão e ele olhando para baixo, não para seus olhos.

Não queria virar pedra.


Eu gostaria de virar uma estátua em vez de pó.


Para derrotá-la, com a ajuda dos Deuses inclusive, utilizando-se de um escudo de bronze tão polido que, reflexamente, como um espelho, pôde olhar para a Medusa até cortar a sua cabeça e levá-la para a Atena. E foi nele que Caravaggio a pintou; encontra-se no Degli Ufizzi, este da foto acima.


Dante enfrenta a Medusa no Inferno, Vigílio cobre seus olhos com as próprias mãos. O museu de casa de Dante está logo ali ao lado da estátua de Cellini. Essas relações entre ruínas, pinturas e estátuas é o que faz de Firenze a cidade onde se sente o que foi o Renascimento. Tudo se retroalimentava, a Mitologia, o poder dos Médici, as pinturas e as estátuas. Centenas de anos com guerras contra Pisa, Siena e Milão. As tumbas de Michelângelo, Galileu Galilei e Nicolau Maquiavel na Igreja Santa Croce.


Na verdade não seria ruim morrer estátua vendo centenas de anos só passando na minha frente. A glória seria a eternidade. Todo o conhecimento da observação ficaria aprisionado na estátua, seria a maldição da estátua-viva eterna.


Imagine ver a evolução dos panini do A'll Antico Vinaio.


Testemunhar batedores de carteira, amantes incontrolados e ouvir as confissões divinas feitas em voz baixa bem do meu lado; apoiadas em mim. É muito dura a maldiçao de não poder compartilhar os séculos de estátua com ninguém. Eu deveria poder conversar com outras estátuas pelo menos. Mas aí eu dependeria de terceiros para me aproximar delas. Estátuas não são removidas todo final de semana.


O mais justo seria que eu-estátua, de mármore carrara por exemplo, pudesse conversar com outras, ainda que de bronze, pinturas e ruínas. Pensando bem, com tudo o que não é mais vida. Tudo o que é passado. O critério então seria que o passado posto e acabado não pudesse almejar o instante presente; revindicá-lo jamais. Este seria privilégio somente daqueles que ainda estão vivos-ambulantes.


Nós, vivos, podemos ser o que já somos; a dinâmica da evolução. Ah, comemos os paninis em vez de só observá-los. E tudo o mais que sabemos fazer de bem e de mal.


Até virarmos estátua.


Não, não eu conversei com nenhuma por aqui.


Ao menos elas não responderam.





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