Lucinda
"Você acha que está na serra (em um lugar isolado)?
Você vai conseguir muito pouco, porque a gente desta terra sabe mais que o Diabo.
Eu temo, minha irmã, se nos pegarem nesse negócio, que nós paguemos bem o pato e ainda muito além da conta (do valor devido)."
(O Auto da Festa, Gil Vicente, 1535).
Paguei o pato mas também comi.
Era um dia normal; um sábado qualquer em que a programação incluiria comprar lombo suíno na Swift. Cozido e fatiado. O molho, reduzido, à parte para chuchar o pão italiano. Vi o pato inteiro e não aguentei, nunca tinha visto antes ao lado do peru. Lembrei do clássico molho de laranja e, conferidos os 2,7 kg com miúdos separados, paguei o pato.
A partir daí, dois pensamentos me assaltaram e ficaram: como fazer o pato e qual seria a origem da expressão pagar o pato, utilizada quando somos responsabilizados por algo que não cometemos, que não fizemos, que não consumimos.
Paga o pato quem paga a conta sem comer.
Uma coisa de cada vez.
Não ficou perfeito. Pato tem que ser assado; converti o cozido em arroz de pato com molho de laranja. Patê de pato. Pato em tirinhas na panela de ferro. Caldo da ossada de pato. Os miúdos ficaram para a farofa de pato, que ainda não fiz. A carne de pato é infinitamente mais saborosa que a do frango, peru e chester juntos. Tem sabor mais intenso e uma camada de gordura mais espessa. Ligeiramente mais escura em alguns pontos.
O pato que a Swift vende é da espécie Pato de Pequim (White Pekin Duck) e é produzido em Santa Catarina pela Villa Germania Alimentos Ltda. e depois processado pela JBS. Como o nome diz, todo pato de Pequim é branco e apenas 15% em média destinam-se ao consumo interno. Você provavelmente já comeu pato catarinense quando foi ao Caribe e se hospedou naquele hotel chique com cozinha internacional.
Confere?
Agora o mais interessante: como e por qual razão surgiu a expressão pagar o pato, já registrada em, pasmem, 1535 por Gil Vicente numa obra escrita em folha volante que ficou desaparecida por 350 anos e, portanto, fora da compilação feita por seus filhos. Dele só tinha lido O Auto da Barca do Inferno para o vestibular. Foi divulgada em 1885 e o Conde de Sabugosa a imortalizou numa publicação eufórica em 1906, cujo original pode ser lido folha a folha.
A versão mais crível veio de uma anedota contada pelos viajantes e que, naturalmente, se incorporou como jargão. A mulher queria comer o pato do vendedor que passava todo dia na frente de sua casa. Como ela não tinha recursos, propôs pagá-lo com favores sexuais. Depois do evento, surgiu, digamos, uma dúvida cambial: um pato daria direito a quantos eventos e o que exatamente estaria incluído.
Não se entenderam e a conversa ficou acalorada.
O marido da mulher chegou bem neste momento.
Inteirou-se - superficialmente - do motivo: estavam discutindo sobre o preço do pato. Ele, cansado, pagou o pato e encerrou a discussão. E, a partir daí, vez ou outra pagamos o pato. Agora, ao menos, você já sabe. Consegue comprar o pato na loja mais próxima de sua casa, na Swift, e, quando falarem que há probabilidade de você pagar o pato, lembre que alguém terá comido, digo, feito algo pelo qual você assumirá a responsabilidade.
Daí conte a origem da expressão.
Eu recomendo pagar e comer o pato.
É uma experiência maravilhosa; mas assado.
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