O trem, Aldorigo e Carrara, o mármore.

10 de out. de 2020
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Aqui estamos, aqui estou, no final do sábado. Perdi a hora hoje, praticamente atrasado em todos os compromissos outrora assumidos. Joguei a crônica para o domingo.
Não é bom se atrasar.
Não é elegante se atrasar.
Ingleses não se atrasam; brasileiros sim. Às vezes o atraso salva vidas, como o avião que caiu, o assalto oportunista ou a explosão que se postergou. Outras, o atraso mata vidas. O avião que caiu, o assalto oportunista ou a explosão que se postergou. Atrasado, escrevo. Tardiamente ela vem, enjoada e sem jeito. Como a moça bonita que, discreta, passa pelo salão sem que ninguém olhe o relógio. Disfarça o jeito e engana o tempo.
Convém mais um trecho de uma poesia perdida do meu pai, ei-la, chama-se SIMULACRO:
DEPOIS
do trem só restam os trilhos,
da vida algumas marcas,
pra lá dos tempos de criança,
tudo se torna uma esperança,
a vida ainda, corre e pula,
o tempo vai domando a vida,
pouco se ri, se esquece as festas,
se perde o rosto cavando um poço,
trabalha sim, trabalha mais, até os filhos,
não brota água mas sobra espaço,
o corpo morto tomba lasso,
o sol desperta, o tempo apressa,
sem redenção, só sofrimento,
na solidão dos meus lamentos,
só resta o grito moicano,
só parecença, simulação, nem é revolta,
como eco, como feto morre o homem
que sempre foi, sempre fez, sempre esperou para
DEPOIS
perdem o trem...



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