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a tua caminhada é a minha

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 13 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura



"Ele livrará você do laço do caçador, e da peste destruidora. Ele o cobrirá com suas penas, e debaixo de suas asas você se refugiará. O braço dele é escudo e armadura. Você não temerá o terror da noite, nem a flecha que voa de dia, nem a epidemia que caminha nas trevas, nem a peste que devasta ao meio-dia. Caiam mil ao seu lado e dez mil à sua direita, a você nada atingirá.", Salmo 91, O justo confia em Deus.



Era onde estava a bíblia quando chegamos na Capela do Senhor do Bom Jesus, Ilha Anchieta, Ubatuba, num sábado ensolarado de pouco vento trespassando pelas ruínas do Presídio já desativado. Entramos e oramos pelos nossos; pela família do pai do namorado da minha filha, falecido um dia antes, minha idade. A tragédia que nos chega nas primeiras horas de um dia qualquer. Ontem foi um dia normal. Hoje a rotina foi devastada por um sentimento de impotência. O luto é o tempo da alma e dos questionamentos inquietos que nos vagueiam.


O vazio nos implode sem cerimônia.


Não é justo! Por que agora? É doloroso porque não temos as respostas. Elas sequer existem; ainda. É o tempo, dia a dia, que nos reconstrói e nos permite que a dor da ausência seja suplantada pelas lembranças dos momentos em que vivemos lado a lado. A macarronada de um Domingo comum, o jeito de acender a churrasqueira ou as camisas iguais durante uma de nossas viagens.


Nossos pais nunca morrem; somos nós.


O meu partiu e ficou. Foi, mas volta vez ou outra purpurina. Sim, dizia que quando falecesse não viraria cinzas, mas purpurina. Leva um tempo até louvarmos a vida e não lamentarmos a morte, o que eles viveram para celebrarmos e não o que faltou para sentirmos.


Eu não queria ter escrito esta crônica.


Não queria aceitar o assunto.


Não hoje. Nem amanhã. Nunca.


Seria sobre a rebelião do Presídio da Ilha e o que mais por lá fosse interessante. Eu tentei por diversas vezes mas não consegui. Nenhuma crônica foi possível senão refletir sobre as tragédias que a vida nos apresenta, sentir pelo luto difícil da família, deixar que o coração falasse, que o destino seguisse seu curso. Andando pela ilha vi uma Bromélia na rocha, a mesma da foto acima, que brotou apesar de todas as adversidades, era a prova da natureza de que nós sobrevivemos às tempestades e, mesmo sem chão, sem terra, o tempo permite que rochedos se transformem em Bromélias.


O mesmo tempo que consome e leva o corpo nos deixa a semente para reflorescer da pedra. Nossos pais estão conosco como sementes para o futuro e nunca nos abandonam. Não podem partir depois que se espalharam pela família e pelos amigos; nos filhos estão e neles seguirão. Levou tempo e muitas lembranças de meu pai até que eu pudesse encontrar sentido em sua morte. Lembro-me que o conforto chegou mesmo quando me dei conta de que vivemos lado a lado a boa vida. Nenhuma palavra faltou ser dita. Quando ele aparece, vez ou outra, corrigindo a minha pronúncia ou quando tomo boldo, lembro-me que ele jamais partiu.


É apenas um modo de ver, dentre tantos possíveis. Precisamos deixar que o tempo nos dê as nossas Bromélias.


"Filho, caiam mil ao seu lado ou dez mil à sua direita, você nunca estará sozinho, estamos ao seu lado e juntos seguiremos mais fortes.


No silêncio e no barulho.

Vamos juntos dar o próximo passo.

Não precisa ser largo, nem perfeito.

Apenas um pé após o outro.

A tua caminhada é a minha"





1 comentário


Selma Romanoff
Selma Romanoff
14 de dez. de 2025

A dor da perda e a saudade do pai se transformando em lembranças, em palavras, poesia e oracao... e hoje atraves da cronica toca o coracao de outros que vivem a mesma dor.

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