Vivemos o paradoxo que merecemos.
Tenho a impressão de que os eventos sociais de networking cresceram com a disseminação das redes sociais (internet), em que a facilidade de se apresentar e conhecer gente nova parece ter aumentado a necessidade de convívio pessoal. Dou um exemplo da minha área. Antes, nós advogados íamos ao Fórum para consultar o processo de papel, participar das audiências, despachar com o juiz e carimbar as petições no "Protocolo Geral".
De quebra, passávamos na sala da OAB, tomávamos um cafezinho e, invariavelmente, encontrávamos algum colega para compartilhar as agruras e glórias da advocacia. O café, mesmo dentro do Fórum, é o terceiro lugar — depois da casa, o primeiro, e do trabalho, o segundo — na clássica definição de Ray Oldenburg em The Great Good Place, escrito, vejam só, em 1989 para criticar uma organização urbana pensada para vender, não para conviver.
Hoje é tudo na tela, inclusive as sustentações orais, raras as presenciais.
Só a expressão "Protocolo Geral" faz-me lembrar, involuntariamente, de uma das repartições nos sótãos em que K. circula, tão longínquos os mundos, em O Processo de Kafka. Bom, sem falar na expressão "Distribuidor", responsável, lá atrás, por cadastrar as petições iniciais, distribuir entre as Varas e emitir certidões de processos ajuizados.
Muitas horas passei na fila do Distribuidor do Fórum Central, em São Paulo, como estagiário, para preencher as requisições das certidões, pagar as taxas e retirá-las, com sorte, uma semana depois. Hoje são emitidas imediata e gratuitamente. E o que se fazia na fila senão conversar? Lembrem-se: não havia smartphone. Ou você lia ou você batia papo. Muitos advogados e estagiários mudaram de escritório na fila do Distribuidor. Essa fila, hoje, nós pegamos, muito rapidamente, é verdade, para saborear o churrasco do Flavinho Barbecue no Reconecte da Fazenda Marambaia deste ano. Aliás, o chouriço (a morcilla) estava incrível, com três gotas de limão obviamente.
Devo sugerir ao Rodrigo que aumente o tempo nas filas do churrasco, pois a cada ano aumenta o número de participantes e diminui a fila de bebidas e comidas. Um saber só d'experiências feito, como escreveu Camões em Os Lusíadas e citado por Rui Barbosa na Oração aos Moços. Do ponto de vista da finalidade do evento, a fila — de aproximadamente oito minutos — no Reconecte anterior, na Fazenda Quilombo, estava mais adequada do que a deste ano; menos de dois minutos.
Nós criamos as redes sociais para nos conectarmos e, depois, de tão próximos — basta um direct — acabamos por nos afastar para, então, participar dos eventos sociais para conversar, nos conectar com pessoas e empresários! Sou fã de tecnologia e de Nelson Rodrigues, a vida como ela é, hoje. Para o passado damos uma olhadela, vez ou outra, o consultamos como diário de experiências; só a fumaça da nostalgia, nunca o fogo queimando o presente.
Mas não são as redes sociais, as telas e a internet causa predominante e reinante da redução do tempo presencial. Muito difícil estabelecer a correlação exata de causa e consequência. Ela é a mais aparente. O convívio social real, digamos assim, vem diminuindo. Para quem gosta de estudos, a fonte: entre 2013 e 2019, o tempo que os americanos passavam com amigos caiu quase 7% ao ano. E, de 2003 a 2019, os jovens de 15 a 24 anos passaram 62 minutos por dia a menos com seus amigos.
Um churrasco por semana.
Cá entre nós, bem melhor socializar ao som do DJ Mateus Paiva e tomando um chopp gelado preparado pelo Empório Santiago do que na fila do "Distribuidor".
O Reconecte do último dia 14, na Fazenda Marambaia — que lugar incrível! —, foi o que deveria ser: uma boa festa para bater papo e, lógico, dar aquele abraço gostoso no Rodrigo com seu estilo careca, barba, camisa e bermuda.
Rodrigão, não leve a sério a fila do churrasco...
Empresários, antes de tudo, têm iniciativa.
Resiliência.
Fé.
E uma disposição inabalável para seguir adiante.
Juntos no braseiro brasileiro.
Comentários