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Negroni com os amigos

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

Ponte Carlos, Praga — a cidade de Kafka. Foto: @svetjekolem / Pexels
Ponte Carlos, Praga — a cidade de Kafka. Foto: @svetjekolem / Pexels

Negroni com os amigos, enfim.


Falamos da vida, dos pais, das histórias da juventude, da família, da história de nossas famílias, dos filhos, dos avós, das mulheres - as nossas - de como nós as amamos e são muito importantes em nossas vidas, sobretudo pela compreensão em nos deixar tranquilos jogando conversa fora. De nossos anseios, dos vivos, dos mortos, de nós mesmos, de terceiros, dos drinks, do restaurante, de restaurante, de vinho, do vinho, das minas de água mineral, das caminhadas e das corridas.


De guerra, da guerra, dos prisioneiros de guerra, do prisioneiro de guerra e do presídio da Ilha Grande onde Graciliano Ramos ficou preso.


De fotografia, de corrida de kart, de carro, do Museu do Carro em Campos do Jordão, de viagens, das últimas, as marcantes e das próximas. Da Espanha, de Santos, da Itália, do Marrocos, do Brasil, de Paris, dos Estados Unidos, do Canadá e de Minas Gerais. Embora não me lembre neste momento a ordem exata dos assuntos. Acredito que não tenhamos falado de Limeira, nem de São Paulo, o Estado. Só da cidade. Não falamos de política diretamente, senão nas entrelinhas entre um copo e outro. Criticamos os juros altos e a cotação do euro. Da violência. Da linda história do Brás do Vacão (empório local de quitutes mineiros e com uma boa adega), de sua bicicleta amarela fixada na parede utilizada nas primeiras entregas pela cidade.

Pouco de trabalho, o necessário para o contexto.

Muito da vida.

Não ficamos nem 6,7% do tempo no celular;

o suficiente para tranquilizar os familiares.


Estamos todos bem, vivendo a vida de adulto.

Como deve ser numa quinta-feira após o expediente. Assim, não acordei inseto no dia seguinte como Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, de Franz Kafka. Acordar inseto é uma metáfora para burnout. Tanto Gregor Samsa como Kafka odiavam o trabalho burocrático e extenuante, Sansa ainda trabalhava para pagar dívida do pai dele, logo depois que o fizesse, pediria demissão e mandaria o seu patrão às favas. Calma, não estou a dizer que odeio o meu trabalho. Ao reverso. Fosse eu dentista ou oftalmologista seria a pessoa mais desgraçada entre os desgraçados.


Há uma diferença entre gostar do trabalho, de nossa profissões, e romantizá-la. Não existe trabalho sem estresse, senão seria hobby. Burnout ocorre quando trabalhamos demais, excessivamente, de modo que ele consuma a quase totalidade de nossas baterias.


Acordamos inseto após uma longa metamorfose interna em que negligenciamos tudo o mais para viver o só trabalho. Imagino Kafka no trem, com aquele semblante esquisito, suplicando para se tornar um inseto para não ter que ir ao trabalho. Desejar acordar inseto depois de um dia maldito até compreendo; é um desabafo, um arroubo e não um dado cientificamente relevante. Porém, se tais pensamentos o dominarem por algum tempo, dentro de certa frequência, é sinal de que verdadeiramente um dia você poderá acordar um grande inseto, cuidado.


Puxa vida, faltou falar de Praga, teremos que marcar outro!




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