Dedico-lhe André Venâncio esta crônica de fé.
É domingo de missa.
Devo-lhe dizer, antes, que acabo de tomar uma dose de Amélia; uma pequena. Não me pareceu adequado escrever sem antes brindar aos encontros que se sucederam simples; sementes lançadas despretensiosas da primeira vez que te vi passando pela porteira da Roça do Isaías Venâncio para alimentar os cavalos e as galinhas, onde nos refugiamos da cidade grande durante a pandemia.
Muito tempo já passou de quando fizemos o primeiro brinde. À casa mesma do Isaías já não vamos. Aos poucos a história do bairro, as pessoas do pequeno vilarejo Venâncio e as iguarias mineiras mostraram-me o lugar em que a paz era plena e agitada. O queijo da Lourdes, a linguiça da venda do Ditão, as vacas do teu pai, o leite gordo, o limão caipira que colhemos entre espinhos. Cheguei estrangeiro e hoje caminho por essas terras como pinhão-árvore e não pinhão-mercadão.
-André, precisamos fazer um churrasco e chamar uns violeiros, conhece ?!
-Uai, o Geraldinho, Canário e Canarinho!
E tantos foram os churrascos com viola e Amélia, ao som do nosso querido Geraldinho. E tantas foram as histórias locais que ouvi. Até que chegamos na maior e mais grandiosa delas, a festa da Nossa Senhora do Bom Sucesso. Somente este ano, depois de três tentativas fracassadas, conseguimos ir, enfim. A primeira o trabalho me impediu. A segunda o médico expressamente me aquietou em casa. A terceira eu já nem lembro, talvez a desimportância natural disfarcada de rotina. Devia eu estar entre tantas tarefas que a fé ficara em segundo plano. É definição própria da vida, priorizar e negligenciar.
Priorizar e negligenciar.
É o que fazemos todos os dias, santos ou não.
Deus ainda não me convenceu de todos os Seus preceitos; restam poucas controvérsias entre mim e Ele, como a Justiça Divina e a certeza de que minha alma se encontrará com todas aquelas que já se foram. Talvez porque não tenha entendido completamente a Palavra, talvez porque precise ler mais e melhor a Bíblia.
- A fé absoluta não é racional, filho.
- Eu sei, manifesta-se pelos milagres, como o dia em que o Ditão nos salvou trazendo mantimentos, isolados que estávamos pelas tempestades de barro.
A esperança nos aparece através das pessoas; o lembrete divino de que, sozinhos, a jornada nos é impossível.
Deus, fé e Amélia.
Devo dizer que acabo de tomar mais uma dose dela, toda azul e verde em seu rótulo. Como em Gonçalves, céu e morros verdes que sobem e descem em nossas vidas. Uma pequena, leve e derradeira. Quando vi a ladeira da Igreja e tudo muito apinhado enfim entendi o que você dizia, daqui vemos um mar de gente.
- Não André, conta mais...
- Pela tradição, a Santa nos abençoa em nossas conquistas, mas como sinal de fé temos que fazer a nossa parte, é preciso carregar a terra.
- Carregar a terra?
-Sim, do monte atrás da Igreja as pessoas pegam, em panos, uma porção de terra e a jogam do topo do morro aos ventos, no penhasco...
- E fazem um pedido?
- Isso, cada porção de terra um pedido.
Vi o quanto você trabalhou na festa, como todos trabalharam devotamente, a família toda, a pequena Bruna e a Mônica. A união das pessoas pelo propósito me impressionou. E as roupas, André ?! Que estilo bonito, bota, flanela, jeans, cinto e chapelão! As doações, a comunidade toda a trabalhar com afinco durante uma semana inteira festiva.
Enfim, vi Raimundo e Zé Bento assando tradicionalmente os quartos e pernis suínos nos bastidores da fornalha viva. Divina!
Eu gostei da homilia.
Lembrou-me meu pai: não se nega nunca, filho, um prato de comida a quem o pede. Tenho a cena em minha mente, ele que quase foi padre... Quis Deus, o destino, que fosse diferente. Não estaria eu aqui a escrever crônicas. Deus não desiste de arrebanhar-me, insistente. Seguimos com as nossas tratativas constantes; sobem e descem como os vales de Gonçalves. Onipresente. Onipotente. Onisciente, vive a mostrar-me a fé através das pessoas.
Talvez Deus tenha te enviado. Nunca saberemos.
Você não viu, mas eu carreguei a minha porção de terra na festa de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
Hoje caminho pelas estradas dos Venâncio como se fossem o vale da esperança.
O vale da fé.
Eu e Deus seguimos a nossa prosa, como viola e cantador.
Mesmo desafinados, celebramos a vida e a fé nas pessoas.
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