(escrita originariamente no Substack)
Logo que me inscrevi no Substack, não tem um mês, percebi o tamanho da confusão. Dei-me conta de que estava na bolha errada, a minha mesma: eu, minhas crônicas, poucas dezenas de leitores amigos que as recebem por whatsapp aos sábados e rezam aos domingos para que eu não lhes telefone. Típico blog de tiozão chamado Antes Que Eu Me Esqueça criado lá em 2018, quando já existia esta plataforma. Transferi todas pra cá e desde então venho trabalhando a timidez digital.
Logo cheguei ao podcast “Letras e Litros”. A partir do último episódio publicado maratonei todos, exceto o de número dois que ainda se encontra perdido. Acompanhar escritores tomando umas e falando de livros é uma experiência sublime. Pela autenticidade etílica da conversa. Pela coragem. Pela paixão. Pelas dicas. Eu que cresci tendo que ir a noites de autógrafos para conhecer escritores como Moacyr Scliar e Ignácio de Loyola Brandão, vejo-me tomando um negroni com três deles. No quarto episódio, a proximidade, ainda que virtual, já me permitiu identificá-los como “o bonachão”, “o serião” e o “risadinha”. É experiência virtual que, nada impede, caminhe um dia para que eles promovam algo presencial. Hoje, porém, um simples mortal como eu jamais teria acesso a tais conversas se não fosse a iniciativa do podcast. Sobretudo vindo doutra bolha.
Logo chegou a minha confusão existencial. Não li a maioria esmagadora dos livros que eles mencionaram. Aí incluídos aqueles que eles próprios - e os convidados - escreveram. Quantos e quais livros fazem um escritor, um bom? E, reparem, a conversa solta e descontraída, livros aqui e acolá, nos mostra com quantos livros se faz um episódio! Foram mencionados, até agora, em levantamento preliminar, 261 livros nos 09 vídeos publicados. Pronto, lá vou eu listar e comprar os que “tenho” que ler, como, por exemplo Os Flamingos de Rodrigo Duarte Garcia. Deixarei, por um tempo, as cinzas russas para brindar aos vivos brasileiros nos próximos meses. Um critério simples resolveu: ler aqueles que os artistas e seus convidados escreveram. Opera-se, então, o inverso do que hoje me ocorre: em vez de ler o livro e depois conhecer o escritor; como já os conheço, lerei os seus livros. Nas pausas dos capítulos suas vozes e faces aparecerão implacavelmente. Senhor! Foi o que aconteceu, por exemplo, com A Poeira da Glória; soube de sua existência e tive vontade de ler depois que assisti à entrevista do Martim Vasques da Cunha a Lucas Mendes e Bruno Magalhães. Acreditem, assisti ao trem todo com quase seis horas de duração.
Logo, não tão logo, lá pelo terceiro episódio, deu-me a impressão de que os escritores são pessoas normais. O que fazem para além de escrever, como começaram, os livros do coração, os livros fora do grande circuito, os dilemas do escritor, como encontram assuntos, os livros que estão escrevendo, quanto há de planejamento num livro, os escritores cujas obras não “descem”, os que só “descem” com bourbon. Esta última não disseram; é minha. Bom, não se sabe, pode estar no episódio perdido.
Logo, a glória. O motivo principal que me fez assistir a todos eles, a ponto de decidir amaldiçoá-los - com o incenso de preto velho que acompanha as minhas imprecações - se não nos derem longas letras e muitos litros foi o seguinte, com algum viés filosófico: concordar em discordar. Ápice no episódio sobre o sebastianismo e as impressões sobre as obras de Graciliano Ramos. Esse confronto autêntico de opiniões que não precisam prevalecer umas sobre as outras a todo tempo; a qualquer custo. Este debate é que me enfeitiça, muito mais do que a conclusão. A liberdade de criticar para ser criticado. De falar bem. De falar mal. De não falar. É a beleza da literatura, das artes: serve pra você, não pra mim. Eu gosto, você não. E olha que torceram o nariz para Philip Roth, escritor que reputo genial.
Sério !?
Só vão.
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