Tentei arrancar.
Não consegui.
Puxei com mais força e não saiu.
Com sede, deixe-a e entornei no copo. A tampinha rodou, a água bateu nela e se espalhou. Dentro e fora do copo. Não me detive a analisar o porquê dela não ter saído. Segunda garrafinha. A tampinha virou e a água se espalhou. Funciona. Não é para sair mesmo, mas isso só descobri na terceira garrafinha. Deve ser alguma regra nova, não é possível. Deve ser trabalhoso alterar a linha de produção do envasamento.
Por que?
Só depois, pesquisando, descobri que é regra na União Européia desde 03 de julho de 2024. Tiveram 5 anos para se adaptar. Tranquilo. Esta não é a melhor maneira de começar uma crônica na Itália, reconheço. Estamos em Firenze, já deixamos a chuvosa Bologna pra trás. Os parmegiano regiano vieram também, inclusive as lascas de 24 meses que sobraram do Ceccarelli, empório bem ali perto do Mercato do Mezo.
A mortadela pra mim é um embutido de lembrança. Meu avô sentado no canto do sofá com a sua cervejinha e ela com limão. Era menosprezada em 1980. Da primeira vez que vim pra Itália fui até lá só para saboreá-la e voltei; de quebra subi na torre na Basílica de San Petrônio. Desta vez, com minhas filhas, ficamos por quatro dias e até os livros da biblioteca municipal, La Borsa, consegui ver com calma. Corri a mão sem olhar os títulos na fileira de nacionais e parei aleatoriamente em Lascia que la vita accada, de Sara Colombo. A capa é forte. Trata da batalha interior de Luca contra a depressão após tentar o suicídio.
Sei que é uma doença séria e grave; ponho-me a refletir que devemos pausar vez ou outra para renovar o sentido da vida. Pesá-la vez ou outra para saber se dela exigimos esforço hercúleo. Imagine se pesássemos a nossa alma, medissémos a nossa energia, com a mesma preocupação que pesamos o corpo.
Já na livraria Coop, com Eataly no segundo andar, pedi que o atendente me indicasse dois livros de escritores italianos, aleatoriamente, chegaram Che la festa Cominci, de Niccolò Amanti, e L'inspettore Coliandro, de Carlo Lucarelli.
É a primeira vez que venho na Itália no inverno. Os pórticos de Bologna ajudam com a chuva. Gorro, cachecol e disposição. Leva um tempo até se acostumar com as cebolas. Você tem pressa pra sair de casa depois que está pronto. Esquece esse negócio de se aprontar e ficar esperando as moças terminarem.
Tivemos que nos aprontar quase que simultaneamente para sairmos; como garrafa e tampinha.
Ontem fomos ao Degli Ufizzi. A Tribuna é uma sala específica onde os Médici expunham as suas melhores obras de arte. Não podemos entrar. Só olhar, tirar uma foto e seguir. Pois é.
Tinha fila.
Pus-me a adivinhar os temas das pinturas no teto do corredor enquanto esperava a minha vez. Museu apinhado. Minotauros e dragões alados sugeriam mitologia e, ao centro, descobri depois, Apolo, Deus que era modelo para os Médici, simbolizando ordem, beleza, razão e cultura. No Palácio Pitti, onde moravam, há uma sala chamada Apolo tamanha a admiração que tinham por ele.
É tanta coisa para escrever que a crônica se perdeu; risco da narrativa sem foco, como a vida sem pausa para se reencontrar.
Espalhou-se como a água da garrafinha Europeia.
Às vezes a gente se perde mesmo para poder mudar de caminho.
A próxima se acha.
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