Repentinamente parei de escrever as crônicas, como vocês sequer perceberam. Vejam o paradoxo: eu mesmo cansei delas. Chegou uma sexta e pensei: não escrevi a de amanhã. Na seguinte: não escrevi a de amanhã. Dessa constatação para um foda-se foi um só átimo. E aí meu amigo, depois que abre a porteira passa mesmo a boiada.
Sem motivo aparente, simplesmente fiquei sem vontade. A preguiça venceu a disciplina? Pode ser. Temos que respeitar nossas limitações? Pode ser também. Mas aí percebi que não sou completamente feliz sem elas. Vinha percebendo que faltava alguma coisa e me dei conta que essa coisa era “escrever crônicas”.
Como sabemos, é na falta que valorizamos a nossa fortuna.
A pausa não foi de toda inútil; revisei o meu livro e decidi escrever o capítulo final, chamado The Bird. Estava guardado para uma segunda leitura. Seguindo as orientações de Stephen King, algo como, se você ler o livro depois de alguns meses e achar que está bom é porque você pode finalizá-lo. Gostei do que reli. Aproveitei também para terminar a leitura de Unbroken, de onde justamente veio a ideia para acrescentar o capítulo final. Semana passada maratonei em The Defeated (Netflix) e quase joguei o controle na TV quando me dei conta que terminaria quando Max atira em seu irmão, Moritz, e salva o diplomata corrupto.
Se pensa em assistir e não gosta de spoiler pare de ler aqui.
A trama se passa em Berlim pós-guerra, com a Alemanha já setorizada entre os soviéticos, franceses, britânicos e americanos. A série passa um retrato que me pareceu muito fiel do caos que foi a reconstrução e os bastidores do início da guerra fria, notadamente uma organização criminosa chamada Engelmacher que trafica informação obtida pela sua rede de prostitutas e guerrilheiras, aliciadas pelo seu chefe, um ginecologista, após realizar abortos decorrentes de estupros cometidos pelos militares.
Fui fazer um Negroni para me acompanhar na crônica e me dei conta que meu freezer não tem lâmpada. Cheguei até a afastar os congelados para confirmar.
Não, não tem mesmo.
Como pode não enxergarmos algo que está diante de nós praticamente todos os dias? Como os espiões na Guerra Fria ou distanciamento afetivo dos filhos. Se tiver mais uma só vida vou escolher ser espião. Devo me preparar desde já lendo os livros do John de Carré. Descobri esse autor quando entrei na biblioteca do Peter, pai do Alex, e vi vários deles enfileirados.
O Peter é cidadão britânico...será que ele é espião da Rainha? Não, não pode ser. Deixe-me voltar à realidade e concluir a crônica para abrir um vinho e ligar para a minha mãe que hoje é aniversário dela. Era isso. Não é da crônica que sinto falta, ela é só um pretexto que encontrei para me afastar um pouco das agruras do cotidiano.
Ah, só descobri que meu freezer não tem lâmpada porque pela primeira vez em anos eu o abro com a luz da cozinha apagada.
É na falta...
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