Na semana passada o pai de dois amigos meus faleceu. São muitos os pais dos meus amigos que já faleceram, inclusive o meu. Pouquíssimos ainda estão vivos, quase nenhum. No velório revi muitos que há tempos não encontrava pessoalmente. A morte que separa é a mesma que nos une. É momento de abraçar os que ficaram; filhos, netos, irmãos, noras e genros. De abraçar todos que pudermos.
A morte que leva um é a mesma que traz outros; de longe, de perto, de muito longe; o vizinho. O corpo que se apaga acende as suas lembranças sempre vivas. E assim se manterão por muito tempo. Alguns até se tornarão lendas. Vez ou outra lembraremos deste ou daquele dia, desta ou daquela cena. Do ensopado. Do empadão. De um sorriso ou de um desabafo. De seu silêncio ou de seus gritos. Não faz diferença; é lembrança.
Costumo dizer que ninguém desaparece, só muda de fase. Só morre por completo quem nunca nasceu. Depois que aqui chega, sua energia se espalha por tantos que já não é mais possível esquecê-lo. Podemos não nos dar conta disso; não é nada científico. É só um fato. Paradoxalmente, viver é jamais morrer. Somos todos Highlanders por algumas gerações.
O assunto acima se adiantou quando parei para escrever. Durante a semana temas para a crônica pululam no poleiro barulhento e agitado. Desejos brotam de nossas rotinas insanas. Dá trabalho botar ovo. Mais trabalho ainda chocá-lo. Muito mais abater as aves para alimentar o ciclo que segue implacável.
Adiantou-se porque inicialmente não queria tornar ao tema velório. Seria sobre meu desejo de conhecer Minnesota, EUA, depois de assistir a duas temporadas de Fargo, Netflix. A série, genial, é ficcional embora afirme categoricamente no início de cada episódio basear-se em fatos reais. Eu não tenho a menor ideia do porquê desejar visitar um lugar depois de assistirmos a uma série. Psicanalistas talvez possam explicar melhor.
Desconfio que foram as cenas fictícias da encruzilhada com Dakota do Norte e Dakota do Sul. Talvez tenha sido a neve. A cabine telefônica na estrada mostrando como tudo evolui tão rápido; e desaparece. Bom, pode ser muito bem uma desculpa para querer viajar e dizer estive naquela encruzilhada - Tripoint - região onde se passa a série Fargo, sabe?
Espero que sejam poucos os que tenham esse problema.
É problema sim! Dos grandes. Sabemos que não me será possível conhecer todos os lugares que já tive vontade de visitar. Como recolher todos os ovos do galinheiro sem quebrar nenhum. Qualquer dia faço uma lista para os céticos. Para hipótese diagnóstica, rabisque uma você mesmo, livremente; em princípio sem julgá-la.
Apenas para não ficar no vazio absoluto, alguns exemplos; eu já tive vontade de caçar na Sibéria e dormir naquelas cabanas de madeira a horas de qualquer civilização. Pescar pelo buraco no gelo. Fluente em russo.
Assistir ao show do Maneskim na Finlândia; e subir no palco.
Trabalhar numa destilaria de Bourbon em Kentucky.
Escrever um romance numa encosta das Dolomitas.
Sustentar oralmente na Corte Costituzionale italiana.
E por aí vai...
Passar um mês com as minhas filhas na Itália começou assim, como uma ideia improvável num sábado qualquer. Ajustada durante a cura do guanciale. Riscar os desejos, já realizados, e esboçar outros que vão nos entretendo enquanto nossos dias nos confundem entre feitos e incompletos. O desafio está em escolher os desejos que virarão realidade enquanto houver tempo. Não é culpa do nosso estado criativo; ilusionista. São apenas inquietações-alertas para nos guiar; nos pedindo uma reflexão sobre...
O que estamos fazendo antes de mudar de fase?
E é sempre num dia qualquer que tudo acontece.
Até que nada acontece.
Até que tudo acontece.
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