Este é o Geraldinho. O da foto acima.
Eu não tinha qualquer tema da crônica até ele aparecer entre as mesas. Eu nem mesmo sabia se escreveria hoje depois de mais uma sexta-feira. Ele percorre os bares de Limeira numa carriola com mandioca e quiabo.
Magro.
Chapeleiro.
Todos o conhecem; aos poucos vão comprando o fruto de seu suor. Do seu sítio para a cidade. Hoje o encontrei depois de algumas semanas, lhe devia um maço de quiabo. Ele não lembrava...Eu sim. Dizem que uma pequena garrafa de cachaça o acompanha. São boatos. São dizeres que não se confirmam. Do Barzão ao Guia. De leste a oeste, deve andar uns quinze quilômetros por dia. Quiabo e mandioca. É fresca. Não precisa colocar na pressão, diz. Em poucos minutos quase nada mais havia na carriola. Eu tento agora achar um significado heroico, um sentido mais forte que me impulsionasse a escrever algo muito bom com base no Geraldinho.
Uma lição de vida. Uma inspiração talvez.
Algo como “ele trabalha enquanto estamos aqui a sorver a vida”. Geraldinho está faturando. No final do dia encontro um amigo, entre queijos e vinhos do Vacão, o empório. Ele me pergunta se continuo a escrever as crônicas.
– Sim, mas não as divulgo como deveria.
– Por quê?
-Tenho dúvidas de que sejam úteis de alguma forma.
Não sei bem de onde tirei que meus textos precisem ser úteis. Façamos uma pausa. Vou dormir e amanhã quando acordar eu termino. Café com chuva neste sábado. Bar do Wirso estava lotado ontem, pessoal da linha de frente, o Alcir, a Laine, o Marcelo e o Raimundo foram guerreiros. Meus queridos amigos Regis e Mário, da Serafins Vinhos, deixaram seus vinhos lá para a venda. Como será colocar vinho para vender em bar de cerveja? Não sabemos, nem arriscamos fazer previsões. Vamos aguardar. Bom, no cardápio tem bolinho de bacalhau e polpetta. Covid nos deixou em paz, como é bom voltar a reunir amigos de novo, dar risadas, fazer piadas, tornar à mesa farta de histórias. Ver o Geraldinho faturando. Não deve ter sido fácil para ele quando tudo estava fechado, com as pessoas surtando dentro de casa.
Seguir a vida com as insanidades mundiais parece ser o caminho; Putin bombardeia a Ucrânia no exato momento em que tomávamos uma dose de campari. Outro amigo meu – do ramo de fertilizantes – me conta que já não encontra mais produtos para revender para seus clientes produtores rurais. Faturamento de sua empresa despencou. Nada fácil meu caro, vai passar. Geraldinho precisa plantar sua mandioca e seu quiabo. A vida que tenta seguir normal numa sexta-feira enquanto as insanidades vão nos afetando e delas nos esquecemos por algumas horas.
Mandioca e quiabo.
Vai Geraldinho!!
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