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dividendos de experiências

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 27 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura


Seu apelido é Pirata. Seu nome é Denis. Conheci-o por acaso no Bar do Wirso há algum tempo. Casado com a Carol, com quem estudei em Andradina no ginásio, foram morar em Limeira. Depois disso encontramos os dois, mais o pequeno Enzo, nome do meu avô, por acaso - aleatoriamente mesmo - mais algumas vezes; uma dezena talvez. Quase o atropelei no estacionamento do Shopping Iguatemi de Campinas quando ele passava por detrás do carro. Cuidado! Disse a Dani. Era ele! O absoluto improvável. Aplicada a mesma probabilidade para a Mega Sena, eu já teria tirado dois prêmios da virada. Quis o destino que eu o conhecesse.


Nos demos bem logo de cara. Depois de mais algumas conversas ele contou que quando era adolescente sofreu acidente de carro e perdeu a vista esquerda. Eu fiquei impressionado com ele nas primeiras conversas. Bom papo, divertido, interessa-se verdadeiramente pela boa prosa. Autêntico. Trabalha na área comercial e vende gelo pra esquimó se deixar. Taí um cara que não deixou o acidente atropelar a sua vida. Foi ele próprio quem me falou que seu apelido era Pirata; deu risada e falou...os caras são f...


Chegamos ao ponto de não precisar mais marcar nenhum compromisso. Até qualquer hora; sabíamos que iríamos nos esbarrar. Num churrasco - este sim marcado - falando sobre finanças, ele me disse, com muita segurança...


...temos que viver experiências... Nós aproveitamos a vida, não me preocupo em deixar herança...


Foi a primeira vez que eu tinha ouvido algo assim com tamanha naturalidade e convicção.


Lembrei dele quando meu primo Paulinho me indicou Morra Sem Nada, de Bill Perkins, lançado em 2024. Neste momento eu paro de escrever a crônica e vou ler o livro para não escrever groselha.


Alguns dias depois.


Li.

Agora, já na Itália, o livro parece fazer sentido, mais experiências que patrimônio. Perkins se pergunta o que teria acontecido com a formiga na fábula com a cigarra logo no começo do livro. Como nossa energia vital é limitada, o valor que sobra após a morte (obtida com o trabalho) é desperdício de lembranças, de experiências. Exatamente a fonte da retrospectiva da vida que fazemos ao final dela. A privação obsessiva, no piloto automático, para só acumular cada vez mais, deixa o timing de certas experiências passar.


E não tem volta.


No mundo ideal o patrimônio deveria ser ZERADO no instante fatal. No mundo real, perto disso. Há ferramentas e mecanismos financeiros que auxiliam nessa empreitada, em condições normais de temperatura e pressão.


Ele não recomenda viver de forma inconsequente e já velhinho deixar de tomar uma soda gelada porque torrou tudo. Vale ler o livro...é impossível destrinchá-lo numa crônica. Vou me ater a duas objeções comuns - ele ouviu várias escrevendo sobre o assunto e as enfrenta com galhardia, inclusive com estatística.


São elas:


  • Meu dinheiro é para a aposentadoria! Ele é mais técnico e mais polido, eu vou abreviar: quando você tiver velho não adianta querer fazer o que poderia ter feito aos 30. Você nem sempre conseguirá gastar o que acumulou. Não foque só em poupar para a aposentadoria. A saúde é limitante. Eu que o diga, tenho que dormir aos 50 com uma aparelho chamado CPAP para apinéia grave. Este item não estava na minha bagagem dos 25.


  • E os filhos? Doe em vida para eles, entre 26 e 35 quando, já maduros, o dinheiro lhes fará mais diferença; e não quando tiverem 60, 70. A herança não terá a mesma utilidade. Reserve o seu e gaste. Eu nem vou entrar na parte jurídica sobre inventários litigiosos. A herança é hábil em desunir. A experiência com os pais é tão ou mais valiosa do que a grana que receberão de herança.


Disclaimer: o livro não é para malucos; esses nem precisam ler. É para aqueles que não se desinvestem e não utilizam o dinheiro para aproveitar a vida enquanto podem, muitos dólares não farão tanta diferença assim no final da vida. Não é para torrar a reserva de emergência cidadão, apenas não vá no automático poupando, economizando, tomando cerveja miserável se você pode beber uma artesanal; não sem pensar no assunto.


Reflita antes de seguir acumulando patrimônio indefinidamente em vez de experiência. Mas não dá para ter os dois? Muito difícil. Nalgum momento você já terá o suficiente para a aposentadoria mas o automático impensado poderá te conduzir a economizar num hotel, restaurante ou a deixar de viajar. A culpa te pega.


Por que será que a fábula não conta o que acontece com a formiga?


Todos temos os nossos piratas inconscientes; que nos saqueiam tempo e experiências em troca de ouro e prata sem fim; como se fosse possível barganhar com a morte.


Esse Pirata...





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