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deixe de pantim

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

O nordeste sempre volta pra mim.

E eu pra ele.

Somos uma sanfona pé-de-serra.


Era o porto onde as galinhas chegavam. Mas, segundo Wadinho, morador daqui, eram escravos trazidos ilegalmente que vinham em gaiolas de d`angola. Fomos mais além, para Maracaípe, menos tumultuado. Mais sossego. O mesmo mar, a mesma brisa. O comércio da Vila de Porto de Galinhas é pujante. Bastante movimentada numa quarta feira de abril. De tudo, nos chamam a atenção: loja de pratos com expressões regionais e o artesanato chamado pacthwork do interior do Alagoas.


Retalhos esquecidos que, juntos, contam uma só história.

Não há uma peça igual a outra; jamais.

Como onda; nunca quebra na mesma linha.


Deixe de pantim, diga logo aonde vai essa crônica!

Digo: somos imperfeitos como o patchwork de Alagoas. E daí vem a nossa beleza. Cada retalho é um recorte de nossas vidas. Pessoas que amamos e se foram. Pessoas de quem nos afastamos tarde demais. Um trabalho incabado, aquele que prolongamos demais da conta. Se num dia qualquer, atravessando a rua ou durante uma meditação, fôssemos surpreendido com a seguinte pergunta: conte-me exatamente como foi a sua vida, por favor. Exatamente. Eu vou parar o tempo aqui, nenhum segundo de vida lhe será subtraído. Valorizamos os detalhes.


Não podemos narrar exatamente a vida que vivemos.

Falaremos sobre nossos retalhos.

Narraremos perfeitamente a nossa imperfeição.


Assim que eu vi o caminho bordado eu parei; besta. Olhei para a vendedora. Voltei para o caminho. Como sempre, inevitavelmente, supreso com a minha ignorância. Como eu não conhecia esse trabalho? Este caminho imperfeito conta a história da minha vida. Talvez da tua. Retalhos imperfeitos de uma experiência perfeita que é viver.


Sabe, há aqui uma inquietação, uma dúvida legítima. Foi um pedaço de pano a te abestalhar mais do que o Pontal de Maracaípe, na confusão entre cores do mangue com o mar, do agridoce se formando? Aff, quisera eu ter esse controle absoluto sobre todas as minhas emoções...


Uma nota rápida para me retirar discretamente dessa conversa toda.


O ceviche nordestino.

Pois bem.


Fanático por esse prato, já me dediquei a replicar essa iguaria peruana. Meu amigo Menini, que se entregou muito mais do que eu, foi quem me ensinou a prepará-lo. Mas, aqui, à beira mar em Xalés de Maracaípe, foi onde provei o melhor deles.


Quinoa. Feijão verde. E o restante tudo igual. Ops, coentro.


Lógico que eu chamei a Amanda, a cozinheira, e fui lá aprender a fazer. Antes lhe disse: olhe, esse é o melhor ceviche que eu provei na minha vida. E digo: é de uma criatividade, uma regionalidade, uma combinação impar...


Pensei, mas não usei a expressão regionalidade. Resumi tudo: é bom demais!


Pipoca, como faz?


E ela me explicou o segredo de deixar o feijão verde tostado. E saboroso. E tudo ali num monte de retalho cultural que, junta tudo, nos leva à perfeição. Olhei para o ceviche nordestino, lembrei do caminho alagoano, mais a Pitu com caju e logo decidi...sabe, vou ali escrever uma crônica e volto.


Não sem antes soltar o tempo.

E deixar as ondas se quebrarem em retalhos.










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