O presente de casamento do meu chefe à época foi a demissão.
Lógico que ele não compareceu; aviso prévio estava dado.
Ninguém me contou uma história parecida. Certamente muitos rodaram logo após o casamento, ou após o nascimento de um filho. Por vezes achamos que o problema não veio na hora certa. Ou, como costumo dizer, quando vêm de carreta e não no baú de uma moto. A vida é difícil; nós todos sabemos muito bem. A vida não é justa. Nem todos sabemos muito bem. A conjugação é esta mesma; antes que os gramáticos me julguem. Propositadamente truncada.
Há uma diferença abissal entre saber e aceitar. Eu já nem lembro de onde, mas recebi a indicação do livro the road less travelled, de M. Scott Peck, em que ele aborda 4 pontos, disciplina, amor, graça e crescimento espiritual. Psiquiatra, lemos logo no início do livro: A vida é difícil. A vida é uma série de problemas. This tendency to avoid problems and the emotional suffering inherent in them is the primary basis of all human mental illness.
Nesta semana eu ouvi da minha filha depois que ela recebeu um não. Pai, isso não é justo. Filha, a vida não é justa, vai treinando para aceitar que vai sofrer menos. A aceitação é um processo. Talvez seja mais fácil, pela minha profissão, de aceitar, de visualizar, essa verdade implacável. A justiça nem sempre é feita nos processos judiciais. Mas há sempre um processo que um dia deverá terminar; a sentença transitada em julgado no processo judicial equivale à psicológica: a aceitação. As decisões judiciais nem sempre nos parecem justas e tempestivas. Há casos em que almejada justiça jamais chegará mesmo após anos de batalha, persistência e recursos. Décadas.
Voltemos ao presente de casamento. Jovem, advogando há poucos anos, ignorei à época uma das regras do poder, não ofusque o brilho do seu chefe. Aprendi, acredito, em tempo, que ser inteligente é diferente de parecer inteligente. Que a inteligência emocional é tão importante quanto a técnica; chamemos assim. Dedicar-se é diferente de ostentar dedicação. Ainda que você não tenha chefe, que seja o chefe, numa interpretação ampliada, há sempre alguém que deve brilhar mais do que você.
As estrelas também brilham, mas é o Sol quem leva a fama. Pouco importa se achei a demissão justa ou não. Fato é que estava na rua. E assim as injustiças vão se repetindo ao longo da vida, os problemas vão aparecendo, rigorosamente, um após o outro, dia após dia, pequenos, grandes, assustadoramente monstruosos. Criados por outros, por nós mesmos, eles estarão lá no café da manhã. Romantizar a vida; acreditar que o dia será uma poesia parnasiana, esteticamente perfeita, é um caminho perigoso. Como se a culpa fosse sempre de outra pessoa.
Assumir a nossa parte que nos cabe neste latifúndio. Nós conosco mesmos primeiro. Vitimizar-se é a trilha da infelicidade, da amargura, da sensação de que muitos se dão bem menos você. É um caminho miserável. De uma vida miserável.
Ao menos ele comprou um presente da lista; curiosamente eu não tenho a menor ideia de qual foi.
Ficou pra trás.
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