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68, motor 1.7, luz de ré e farol de milha amarelo.

Foto do escritor: Carlos Camacho
Carlos Camacho
há 7 horas
3 min de leitura


Vocês estão lendo o cronista errado.


Há crônicas melhores e mais bem escritas do que as aventuras pelo meu cotidiano alheio. Leitores psicólogos, relaxem. Estou bem. Não passo por nenhuma crise de autoestima; sabem os mais próximos que, toda vez que o espelho me confronta, espanto-me com tanta beleza e simpatia. Gosto dos textos que escrevo, mas, como tudo na vida, podem ser melhorados.


Minimamente, questionados.


Autocrítica é uma baita qualidade.


Basta que não a valorizemos a ponto de deixá-la reinar sozinha e impedir que avancemos. Alçada a patamares patológicos, nada será escrito ou publicado; o almoço não será servido porque a perfeição ainda não foi atingida. Como o carbonara que você fez no domingo passado e, em vez de guanciale — mais caro e difícil de encontrar no Brasilzão — colocou bacon.


Na sabedoria popular: o ótimo é inimigo do bom, pronto.


Feita essa ressalva contextual, foi essa uma das reflexões que me surtaram após ler as crônicas de Orlando Tosetto (Silly Talks no Substack). Como pode uma crônica ser tão genial? Carbonara legítimo, com guanciale e pecorino. Eu o conheci no Letras & Litros, mas fui ler mesmo os seus textos — calmamente — nesta semana, após a publicação de núm. 280.


A calibragem perfeita dos tempos verbais e memoriais, entre reminiscências e as notícias do jornal da manhã. Levemente ácidas e irônicas. Ora bem, ora mal-humoradas. Observação irreverentíssima do cotidiano. Extremamente bem escritas, com português impecável. Frasista exímio. Não se esquece da pimenta-do-reino salpicada antes de levar o carbonara à mesa.


Autêntico como deve ser o cronista que se preze. Os leitores podem gostar de umas, desgostar de outras, mas o cronista terá seus textos desprezados se for dissimulado. O único requisito obrigatório para ser cronista é a autenticidade, pela mesma razão por que não há carbonara sem pasta. O mais são ingredientes e temperos que — como sabemos — devem ser saborosamente equilibrados para que sejam maravilhosamente apreciados. Orlando jamais colocaria esses dois advérbios de modo na mesma frase. Jamais! Também jamais repetiria jamais assim, sem antes encontrar um sinônimo.


Lógico que eu fui ler a sua primeira crônica postada (02/06/2021). Dou-me com esta:


"O grande escritor, eu já disse algumas vezes e, sinto muito, vou ficar repetindo, o grande escritor, eu dizia, explica você para você mesmo. Não só isso, é claro, mas também isso: faz você pensar melhor coisas que você pensava mal; faz você achar e dizer (senão repetir) melhor coisas que você achava e dizia mal."


Tosetto arrumou-me problemas. Confusão. Sabia que isso aconteceria aqui no Substack. Terei que ler todas as suas crônicas, como se eu fosse aposentado a andar por aí na praça jogando baralho. Ele publicou uma coleção de suas crônicas, chamada Todo mundo é lua. Lançou na Bienal há pouco e eu não pude ir. Perdi o autógrafo. Mas, sem me dar por vencido, encomendei o livro por e-mail e ainda indaguei da possibilidade de recebê-lo com uma notinha.


Não é o certo. Idealmente, o escritor olha bem para as orelhas do leitor e escreve qualquer coisa que lhe vem à cabeça. Sugeri até ir a São Paulo retirá-lo. Quem sabe tomar um café!


O que tem a ver a foto do Fusca que tirei ontem no Carro Véio enquanto pensava neste texto entre chopes e torresmos?


Uai, ilustra exatamente a crônica do Orlando, para quem não gosta de carbonara.

 
 
 

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