é tarde demais...
- Carlos Camacho

- 29 de ago. de 2020
- 4 min de leitura

Nossos automáticos são as nossas criações pródigas. Elas vão gastando os nossos sentimentos, as nossas experiências e os nossos amores como se não houvesse amanhã. Até que seja tarde demais. Por vezes, dão as mãos aos nossos preconceitos, estreitam-se às crenças intransitivas e programam o maravilhoso mundo da continuidade de nossos crepúsculos.
De um dia que não se vê passar.
Do sol nascente à lua brilhante nós vamos nos balizando pelas nossas vinte e quatro horas, dias, meses e décadas. Todos os nossos automáticos juntos e unidos forjam os nossos hábitos. Aí cada um os qualifica como bem entender, se bons ou ruins. Se oportunos ou não. Aqui termina a parte teórica e começa a parte prática. Se não fosse um churrasco doutra turma dificilmente eu ouviria pela primeira vez a música "É tarde demais".
Se estivesse entre meus amigos de sempre ou mesmo em casa, sozinho, ou mesmo na estrada, juntinhos, eu teria colocado Rock; geralmente os clássicos. No churrasco ouvi todos cantando essa canção do Raça Negra. Disse que não conhecia para espanto geral. Como assim, não conhece essa música? Como assim? Nossos automáticos. Lembro-me até hoje quando disse que não conhecia Pitty. Faz um tempão já mas a reação foi a mesma: como assim não conhece Pitty? Como assim?
Cara, se equalize!
Esta última frase eu inventei. As outras não. Essa música do Raça Negra é linda demais. Coloquei para uns amigos que estavam curtindo o Bob Dylan enquanto tomávamos vinho para reduzir as tensões da quarenta...
- Sofrência não Camacho! Sério isso?! Como assim?
- Não, espere aí, ouçam, e comecei a cantar..."Olha só você, depois de me perder, veja só você, que pena, você não quis me ouvir, você não quis saber, desfez do meu amor, que pena, que pena, hoje é você que está sofrendo amor, hoje sou eu que não te quer, o meu coração já tem um novo amor, você pode fazer o que quiser, você jogou fora...o amor que eu te dei, o sonho que sonhei, isso não se faz...você jogou fora a minha ilusão, a louca paixão, é tarde demais, que pena...que pena amor....que pena....que pena amor...". E continua...
Foi tarde demais quando Charles Citrine, protagonista de "O Legado de Humboldt", se deu conta. Renata, sua namorada, o abandonou na Espanha e fugiu para Milão para se casar com Flonzaley. Como assim? Quando ela já tinha viajado ele se deu conta de que a tinha perdido. E, no desespero, a pediu em casamento por telegrama. Deveria ter feito isso antes, foi a sua percepção. Não que o casamento seja sinônimo de sucesso garantido, mas porque ela, a Renata, estava cansada de ser apresentada só como mais uma de suas namoradas.
Queria casamento.
Compromisso. Como assim por telegrama? Como assim?
A história se passa por volta dos anos 50, em Chicago. Não tinha email. Não tinha celular. Não tinha Raça Negra, tampouco "É tarde demais", mas foi a música que se cantou pra mim quando enfim Renata lhe respondeu, por carta:
"Eu tive muito espírito esportivo e deixei você se divertir à vontade. Eu também me diverti. Não te neguei nada. Mas você me negou muitas coisas. Você não se lembrava que eu era mãe de um menino. Você me exibiu para todo mundo em Londres como a vadia espetacular que você andava comendo em Chicago, aquela cidade cambaleante. O Ministro da Economia me deu uma apalpada às escondidas. O sacana. Deixei para lá, por causa da antiga grandeza da Grâ-Bretanha. Mas ele não faria isso se eu fosse a sua esposa. Você me pôs na posição de uma prostituta."


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