Estávamos num daqueles diálogos bumerangues em que dois ou mais assuntos não terminados eram conversados quase que simultaneamente...
- Mas afinal qual é a sua meta?
- Consumir mais creminho!
- Como assim? Creminho de....?
- Consumir não é bem a palavra, não é consumir de adquirir, consumir mais no sentido de receber, no sentido de chegar algo que você está esperando...
- Mas você diz creminho de....?
- É, creminho...Mas tomar não é a expressão que melhor o define porque não é necessariamente para beber, matar a sede, é mais no sentido de saborear, apreciar, deixar na boca por um tempo...
- Sim, acho que estou entendendo, mas o creminho a que você se refere...
- Vem naturalmente...
- Sem pedir?
- Algumas localidades você não precisa pedir, outras nem pedindo você consegue...
- Por isso você diz que consumir não é bem a palavra...
- Isso. Exatamente.
- Mas se não depende de você como aumentar a meta de...consumo não...como eu poderia dizer?
- Como aumentar a meta de ter mais creminho você diz?
- Sim.
- Por isso é meta. É desafio. Se toda meta dependesse somente de nós mesmos seria muito fácil. É um desafio. Os grandes feitos podem até ser lembrados pela história como capitaneados por uma pessoa, mas, rigorosamente, foram a conquista de muitos, centenas, às vezes até centenas de milhares. Como falar dos ingleses pelo Churchill por exemplo. Bento Gonçalves pelos farrapos.
- Tá, mas ter mais creminho do que, não dá para ser mais claro?
- Ter não é bem a expressão, porque é algo de que você tecnicamente não se apropria. Não se coloca no bolso por exemplo.
- Consigo ter uma ideia, não se consome, não se tem, não se possui e vem naturalmente nalgumas localidades. Essas localidades....o que seriam?
- Seriam localidades hábeis a fornecer mais creminho.
- Mas você diz creminho de...?
- Fornecer não seria bem a palavra, eis que não é algo tangível porque se associa mais a uma percepção, embora esta possa ser, por vezes, tangível. De modo que a recíproca inversa é verdadeira.
- Como assim, pode dar um exemplo?
- Sim. Posso te dar um aforismo. Nem tudo que é tangível é perceptível. Nem tudo que é perceptível é tangível.
- Essas localidades, então, entregam sensações as quais você denomina creminho?
- Não fui eu quem definiu o nome, mas sim. Repare que não é entregar no sentido de delivery. Embora possa sê-lo nos dias atuais, nestes tempos pandêmicos.
- Quem deu o nome de "creminho"?
- Os costumes...há muito tempo atrás.
- Como o café por exemplo.
- Hum...está relacionado.
- Se a sua meta é consumir mais creminho, você já conhece bem sobre ele ao que parece, sabe das localidades que o produz, por que precisa aumentar a sua meta? Em quanto seria esse aumento, meta sem número não é meta.
- Em torno de 20% ao mês.
- E há localidades que viabilizam esse aumento?
- Sim, estudos mostram que podem propiciar um aumento de até 80% ao mês.
- Então não é desafio! Ou algo me escapou?
- O custo. Estima-se que para cada incremento de 1% a.m. de creminho você precisa investir mais 10% a.a. entre custos diretos e indiretos.
- Só nas localidades?
- Nas localidades que permitem a obtenção de creminho que sabem elaborá-la, que tem o know-how. Coloque aí um perda de 2%, o que pode-se chegar a um aumento de investimento de 12% consideradas as perdas. Mas saborear aquele creminho não tem preço, é intangível porque é uma experiência mágica. A fonte de água ao final da trilha tortuosa. Não a água parada, a que jorra das entranhas e refresca a quentura.
- E o retorno do investimento, demora?
- Depois que você pega o jeito e reduz as perdas vai embora...
- Tem ideia de quanto tempo?
- Muito relativo, às vezes pega jeito rápido...mas a maioria demora um pouco até que o creminho apareça de forma mais consistente...
- Creminho de...?
Ficou aquele silêncio e nenhum outro assunto estava mais em andamento. A curiosidade alongou o diálogo mais do que o previsto e terminado assim de repente ficou ligeiramente desconcertante.
- Vamos tomar um café?
- Com creminho?
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