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o foguinho

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 1 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de jul.


- E a do foguinho?


E passou a me cobrar insistentemente uma crônica com este título. Ela juntou uma foto impressa nossa - recém descoberta - em que eu segurava uma pequena tocha com os vídeos recentes de pequenas labaredas feitas no gengiskan aqui na sacada e sentenciou:


- Você tem alguma coisa com fogo!


E riu. Minha irmã tem razão.


Eu só não tinha ligado os pontos assim com tanta naturalidade. Toquei fogo na sapateira da minha avó Cidinha quando tinha uns 6 anos. Demorei-me por diversas vezes a voltar para a cama dos prazeres nas montanhas enquanto eu viajava nas lareiras arrumando as brasas dos eucaliptos. Nem sempre os paus estão no lugar certo.


- E a do foguinho?


Eu desconfio que ela - além de me zoar - espera alguma divagação freudiana sobre minhas pulsões. Sobre esse desejo selvagem que tenho pelo fogo e de sua influência hipnótica que ele exerce sobre nós. Alguma versão satírica talvez. Lu, não me complica. Eu não tenho a menor ideia das razões que me levaram a ser um incendiário frustrado.


Talvez mamãe possa te dizer.


Talvez papai...papai não dá mais.


Eu não gosto quando a crônica sai de mim e quer ter vida própria, sabe. Porque é isso que está acontecendo agora, eu já não tenho domínio total sobre o texto e ele vai se escrevendo rebeldemente sem qualquer preocupação com as consequências; tal qual fumaça que trespassa buraco de fechadura.


Um rebelde sem causa.


Um agitador irresponsável.


O fogo é tentador, é um elemento pré-histórico. Não deveríamos ter queimado os tiranos que fizeram História? Queimamos livros ao longo da história, a Inquisição, os nazistas e a dinastia Chin. Somos bárbaros domados. Repare neste momento que a crônica está num crescendo de tensão.


O que era jocoso no começo desceu em queda livre para a selvageria; a infâmia. Tantas bruxas foram queimadas vivas há pouco tempo, logo aqui no século XVIII.


Retomei Lu, desculpe. Consegui pegar de volta a crônica pra mim. Sabe o que é Lu? Ideias são como vírus. Querem se propagar. Querem contaminar. Querem circular.


Desculpe, não é sempre que as ideias se rebelam para ganharem autonomia...


- Até que ponto você vai evitar causas polêmicas e, assim, ser lido como um cronista de verdade? Cadê a política suja? Cadê o futebol com seus jogos decididos no dólar?


- Hã? Que surtinho é esse?


- Toda vez que eu faço perguntas desconcertantes, sinceras, que merecem de você uma reflexão profunda, você chama de surto. É o surto da verdade. É o surto dos miseráveis mortos em guerras tribais, nas secas áridas onde não se planta sem chuva. É o surto da dinheirama que vai pagar os vinhos caríssimos e o estilo de vida nababesco que os corruptos do dinheiro público tiram do seu bolso.


- Jesus...


- Não! É o diabo mesmo. É o diabo que quer queimar esses seres desprezíveis. É o ódio. Temos ódio. Nós matamos. Nós humilhamos. Nós roubamos. Nós discriminamos. Somos a nossa própria peste. Nós retornaremos! Sempre!


- Nós?


- Vem você com esse discurso raso, como se nada tivesse a ver com a situação. Nós, a humanidade. Nós os seus avós, os seus bisavós. Você acha mesmo que seus antepassados todos foram pessoas boas como você os julga? Volte na sua árvore genealógica, sei lá, quinhentos anos, e tenho certeza de que você encontrará um tirano, um déspota, um traficante de escravos, um assassino de aluguel, um ser desprezível que você, se pudesse, riscaria do seu tronco genealógico. Teu sangue, nosso sangue, o sangue da humanidade nunca foi puro.


- Ai, ai, ai...sério? Voltar quinhentos anos, nem sei que são meus bisavós direito.


- Viu? Omisso. Não conhece o seu passado. Insiste em estudar história, as guerras, os eventos, decora meia dúzia de datas mas não sabe quantos tiranos, bandidos e seres vis foram seus antepassados.


- Que maluquice pessimista, não vou entrar nessa. Me erra.


- Eu sei que não! Eu sei que não! Eu sei que não! Mesmo assim eu vou continuar a imprecar, a apontar, toda vez que você insistir em só escrever, em só contar historietas sobre foguinho, plantinha, livrinho, sem adentrar no âmago das coisas. Não percebe que há incêndios por toda parte? Vá, vá viver o teu ...inho no teu cantinho.


- Posso concluir, Sr. Profundo?


- Ah, vá para o inferno. Deu-me por hoje Sr. Tempero!


Desculpe Lu, quando a trazia de volta escapou-me novamente. Verdade seja dita estava distraído pensando na fogueira que farei em Minas quando esta peste passar.


Agora estamos estabilizados.


(te amo)


 
 
 

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