três mil ducados
- Carlos Camacho

- 6 de jun. de 2020
- 4 min de leitura

Li Philip Roth nesta semana aos quarenta e tantos anos. Há algum tempo não lia assim um livro praticamente duma só vez. Os anteriores estavam sendo largados após algumas páginas ou capítulos. E, para terminá-lo assim, na exata medida de minha curiosidade, somente levando-o comigo; ainda que para dar um passeio pela rua. Ao chegar ao meu destino abri a mochila e percebi que a tampa do frasco havia se soltado e o álcool, líquido, tinha molhado tudo em volta, inclusive o livro.
Depois, seco, apareceu uma mancha azul-clara em formato de meio coração. Na parte superior do livro ficou a metade baixa do coração. E assim continuei a lê-lo página a página com o meu coração de contorno azul e não vermelho. Nesta leitura, pela primeira vez, eu parava e tentava imaginar qual o rumo que a história seguiria. Um exercício de criatividade digamos. Só quando se escreve, se cria uma história, se tem a exata noção desse branco que precede a continuidade do enredo.
É mágico para o escritor. É difícil para o escritor.
Escrever é agoniante e divertido a um só tempo. Diferente da vida onde nós não temos nenhum controle sobre o amanhã, o escritor deverá escrever a próxima página se quiser concluir o livro. A narrativa de Roth oscila com maestria entre a satirização e a seriedade que ele trata da temática judia, sempre presente em sua obra. Operação Shylock, uma confissão, conta a experiência de um outro Philip Roth que aparece em Jerusalém durante o julgamento de Ivan, o terrível, que aterrorizou os judeus em Treblinka e pretende levar parte dos judeus de volta para a Europa (diasporismo).
Ele vai pra lá entrevistar o seu amigo e escritor Aharon Appelfeld e conhece esse outro Philip Roth. A sua criatividade é admirável. Culta. Mas, de tudo, foi seu estilo que mais me chamou a atenção. Muito parecido com o meu no jogo de palavras e na construção da imagem da cena na mente do leitor; também na repetição para se lapidar a "sensação" até obter do leitor uma ojeriza, um asco, fome ou encantamento.
Impressão minha ou acabo de me comparar a ele de algum jeito?
Essa quarentena não está me fazendo bem.
Um trecho dele: "Ao acordar, eu cheirava a alguma coisa enorme em putrefação. Cheirava a mofo e fezes. Cheirava às paredes de uma lareira velha e úmida. Cheirava a esperma fermentado. Cheirava a ela adormecida em minhas calças - era aquele fedor forte, impregnante, de carneiro, e também o desagradavelmente agradável cheiro pungente nos dedos médios da mão que pegou o telefone ao tocar. O rosto, sem lavar, tinha o fartum dela.".
Simplesmente genial. Separei mais um: "Bem, isso sem dúvida era parte do mundo que eu deixei. Também deixei o mundo da minha horrível família e o mundo da vida caótica. E aí, quando estava bastante forte, pude fazer coisas por mim mesma. Fui para escola de enfermagem. Foi um grande passo pra fora do cristianismo. Parte do que o cristianismo significava para mim era não ter de pensar. Era me dirigir aos mais velhos e perguntar o que devia fazer. E me dirigir a Deus. Com vinte e tanto anos, percebi que Deus não responde. E que os velhos não são mais sábios do que eu. Que podia pensar por mim mesma. Mesmo assim, o cristianismo me salvou de um monte de loucuras. Me fez voltar pra escola, fez com que eu parasse de curtir drogas, de ser promíscua. Quem sabe onde eu podia ter acabado?"
Não pretendo nem me atrevo a indagar a razão pela qual Roth e eu nos conhecemos só agora. A prova viva de que todos os escritores são imortais para aqueles que achem os seus escritos. Eu retirei do blog todos os meus contos ligados à segunda guerra e ao pequeno Vilarejo ao Sul do Brasil e os trabalho para concluir um livro. Fui escolhido pelo Roth justamente agora. Este que estou lendo sequer o comprei. Veio junto na devolução de vários outros que tinha emprestado para o saudoso bar daqui de Limeira, Evil Garage Bar, e não sabia de sua existência até que eu bisbilhotei a minha estante pela milésima vez e o achei pela primeira.
Deixemos assim as coisas em nossas vidas: temporariamente inexplicáveis. Um spoiler de 09 de junho de 1940, que é um capítulo meu da segunda parte do livro ainda inédita: "Deu-se conta que nunca tinha entrado numa igreja depois que voltara da guerra. Lembrou-se de sua avó que era católica fervorosa e dos Domingos que a acompanhava quando menino. Decidiu entrar. Sentou-se olhando fixamente para o altar e descobriu que não sabia rezar. Então ficou só olhando para o Cristo crucificado – rendido - e se desviou delirante para os detalhes dos vitrais coloridos que cercavam o altar".
Ele tem mais de trinta livros escritos. Eu estou lendo só um deles. Temos uma pequena jornada adiante. Minha filha mais velha estava patinando pra ler. Contando a história de Anne Frank ficaram ambas curiosas por saber como ela poderia ter vivido num espaço tão pequeno.
- Viu só filhas, e nós estamos de saco cheio de ficar dentro de casa.
O Diário dela chegou pelos Correios algumas semanas depois. Começou e não parou mais de ler.
- Ah, pai, o lugar que ela ficou não é tão pequeno quanto você falou.
- Não?
- Maior, quase três vezes. Assim ó...Ah, precisamos conhecer Amsterdam! Lá tem o lugar que ela ficou escondida junto com a família. Eu já até achei no google maps. Talvez seja papel dos pais, talvez dos escritores, talvez dos dois de mãos dadas, mostrar para as crianças que há glória e horrores em nosso passado; este nosso da humanidade. Obrigado Roth por cada palavra escura inscrita no branco de nossas ignorâncias.
* Three thousand ducats foi o valor que o judeu Shylock emprestou ao seu amigo cujo não pagamento lhe permitia levar uma libra de carne de Antonio. Nem mais nem menos. Como vocês sabem do Mercador de Veneza de Shakespeare. Mais um capítulo na longa jornada do povo judeu.


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