Dei-me férias das crônicas durante as primeiras semanas da quarentena. A última foi publicada há mais de um mês, seguindo a ordem natural das coisas eu deveria ter escrito, lá atrás, logo no começo desta maluquice toda, sobre o sentimento das pessoas durante a quarentena. Recebi várias mensagens de sugestões após um pedido meu.
Bem, bom, aí deu um trava; um tédio; um nãoseibemoquemasmeusacoestácheio e acabei não escrevendo a crônica. A maioria desses sentimentos está aqui ao meu lado anotada e dormente. Um parente meu enviou-me o que acredita ter sido parte de um sonho que teve na noite anterior. Prometi não divulgar o nome de ninguém porque o sentimento de João poderia ser o de Maria. O de Chico tal qual o de Francisco. Mandou-me sentimentos cifrados, digamos assim.
Adianto-lhes: "A bola sai fora da quadra. Garoto arremessa de volta. Movimento errado, bola não retorna para quadra. Corro, apanho a bola e devolvo à quadra. Bola vai em direção ao gol. Tartaruga sobre a linha do gol, impede gol e inicia contra ataque. Lança a bola para frente.".
O covid é a tartaruga sobre a linha do gol, não?!. Exatamente algo inesperado, teratológico e nos trava de dar o grito de todo dia, o abraço, o beijo, a rotina que tínhamos. Como jogo sem gol vivemos nossos dias distantes e perplexos até que algum sentido achemos nessa maluquice. Até que a tartaruga faça sentido.
Vejam agora o segundo enigma: "Do outro lado da quadra, galinha e gato, em movimentos sincronizados defendem, evitam gol. Jogo encerra-se abruptamente. Galinha e gato, olhos esbugalhados, assustadores, desafiadores, vêm em minha direção. Protejo-me com toalha branca e acordo."
Esses enigmas, essas frases, vieram porque estavam relacionados ao covid19. A única coisa, duas na verdade, que eu pedi: que fossem sentimentos e relacionados ao covid19. Este último, então, é ainda mais doido porque nos dá uma clara ideia de que galinha e gato devem atuar juntos na defesa. Meu amigo, minha leitora, já viram galinha e gato trabalharem juntos? Então...e, ainda mais, ambos com olhos esbugalhados e assustadores ?! E, ainda mais, vindo todos em nossa direção, ou na do vírus ?!?!
Bom, daí pra frente cada qual adapta o enigma para suas crenças e políticas. Foi bom dar esse tempo da crônica, das escritas. Eu vezes por outra canso de mim mesmo. Por um tempo. Num português mais escorreito e numa linguagem menos truncada, um intervalo de nós mesmos. Um intervalo entre todos os eus que nos compõem. Essa última frase permite ao terapeuta compartilhá-lo sem passar vergonha.
Eu darei uma pausa agora para comprar uma panela de alumínio, brilhante, grande e com tampa. Como o mercadão de Limeira pegou fogo, restam-me algumas lojas que ainda estão de pé ao seu redor. Aqui, leitor, para bem entrar no clima do texto, pode parar de ler, vá regar a planta, olhar o insta ou decifrar o enigma.
Depois de uns quarenta minutos a duas horas volte para o texto.
Tudo na vida é intervalo, sabe. Os intervalos já salvaram a humanidade; não se olvidem. O que nos teria sido se Hitler não tivesse dado um intervalo ao cerco de Dunkerque? O que seriam nossos domingos sem os intervalos dos sábados.
R$ 80,00 a panela de alumínio de 10 litros. Com tampa e brilhante como tinha sonhado. Após o choro foi para R$ 70,00, no crédito.
Paio, calabresa, lombo, costelinha, bacon, feijão, cebola e o alho.
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