Eu não achei que fosse me esquecer do Sábado. Ele nunca foi assim mais importante do que o Domingo, eu sei. É que o Domingo já nasce nobre. Já nasce rei. Já nasce como o dia do descanso; do almoço e do retiro.
O Sábado é o coringa.
O Sábado mesmo é quem usamos pela conveniência e oportunidade. Pode ser feijoada ou empreitada. Devo-lhes dizer que não estou no Sábado. Estou numa sexta-feira pré-carnaval. Estou à sexta-feira. Ou, para os que eventualmente objetem o emprego dessa crase: estou sobre a sexta-feira. Na televisão não tem marchinha de Carnaval, toca Mark Knopfler. Todo esse pouco me aparece na hora de preparar a crônica do Sábado.
Depois de dois sem texto, volto para ele como quem volta para casa sem caça. Eu não esqueci dele verdadeiramente; apenas não lhe dei importância. Ele sequer demonstrou mínima preocupação. Quiça tenha me olhado com certa intriga. E assim se passaram dois deles. Não sei vocês mas eu olho o tempo do silêncio.
É o tempo que passa fingindo desimportante.
São tempos perigosos.
Duas semanas de silêncio se passaram entre hoje e o último texto. Curioso olhar o tempo do silêncio. Tempo de silêncio não é o mesmo do que tempo de paz. Tempo de silêncio não é o mesmo que tempo de guerra. Eu via o tempo passar como se quisesse ganhar autonomia de tempo universal; de tempo histórico. O tempo também me olhava irritantemente quieto e pensativo.
Esperava de mim uma ação; quiça uma transgressão.
Nem clamei dele atenção, retardo ou avanço. Numa dessas tardes tempestuosas, de vendaval e inundação dei-me conta da força de seus guerreiros na luta pela sua eternidade. Chuva, vento e sol implacavelmente forjam a dinâmica de sua existência. Ele nunca nos dá a cara; ninguém o apanha ou o aprisiona embora a todo instante onipresente. O tempo é dissimulado por natureza, faz-se infinito na infância, nos faz sonhar na juventude para ao final, na velhice, nos dar o seu golpe mortal. Elimina brutalmente quem nunca se deu conta de seu poder supremo.
O tempo que achamos dois é um só.
Não tem essa de tempo interior, da alma, e tempo exterior, das horas. O tempo nunca foi medida. O tempo nunca foi séculos de conquistas e derrotas, de guerras e descobertas, nunca foi o tempo das histórias da História que conhecemos. Da explosão ao presente o tempo sempre foi sentimento. Percepção de vida. Tempos de indiferença. Tempos de ganância. Tempos de amor. Tempos de alegria. Tempos de desilusões.
O tempo fala acaso não tenham percebido.
Mas nunca em palavras.
Em música.
Quando o vento tentou derrubá-lo, soprando aguda e violentamente para ceifá-lo, ele não conseguia se expressar, não conseguia conversar com o sol e com a chuva. Então ele sabiamente criou a música e, assim, encantou ambos. Nunca mais o vento se rebelou. Se bem que dizem que a pior batalha foi entre a chuva e o sol quando o tempo saiu de férias para outra Galáxia.
Mas isso é outra história e longa.
Conto outro dia, estou sem tempo agora.
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