top of page

São Paulo

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 2 de fev. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 24 de jul.


Lembro-me de ler de pé em ônibus e metrôs.


De voltar da escola com os amigos e escorregar pelas laterais das escadas rolantes antes de colocarem os pinos de antiescorrega. De deixar a mochila escorregar pelas laterais antes de colocarem os mesmos pinos. De comprar doces de ambulantes, de parar nas bancas de jornais e livrarias. De dar lugar aos mais velhos. De dormir e deixar o ponto passar. De ouvir notícias sobre o trânsito a caminho do Colégio. De pegar trânsito na ida para o Colégio. De ir para o inglês.


Para as aulas de violão e futebol.


De ir para a Faculdade com trânsito e música. De ir de carona. De dar carona. De passar a noite acordado para estudar para a prova. De fazer as provas, de sair com a turma. De ir a festas. De sair só com os livros. De me preocupar com o futuro, com o estágio e com a profissão. Do ritmo frenético que nos envolve e nos acelera cada vez mais. Lembro-me das entrevistas e do estágio. Dos variados bares e dos infinitos lugares que ela oferece.


Dos nomes das ruas.


Dos caminhos.


De quase ser agredido no centro.


Das corridas no Ibirapuera. Das voltas de bicicleta pelo seu entorno. Dos shows. De parar para comer lanche depois dos shows. Do Paraíso, da Vila, das Vilas, da Freguesia, do Bixiga. Dos cinemas. Da minha primeira peça de teatro. Da primeira vez que colhi o autógrafo de um escritor preferido. Da segunda vez que colhi o autógrafo de outro escritor preferido. De quando ouvi uma palestra de um autor preferido.


Da primeira exposição de fotografia.


Dos mendigos jogados. Da sujeira estragada que se joga pela rua. Da sujeira política que tanto afunda a metrópole. De ser assaltado pelo ladrão. De ser assaltado pelo patrão. De roubarem meu tempo. De roubar tempo. De ganhar dinheiro. De gastar esse mesmo dinheiro. Lembro de ter resistido a sair de São Paulo. De resistir a voltar pra São Paulo. De andar de moto pelos corredores.


De ter escrito o meu primeiro texto sonhando ser escritor.


De ter abandonado dois sonhos.


De casar. De empreender. De ter uma filha. De voltar a sonhar. De rezar na passagem da igreja. De almoçar na minha avó. De conversar bastante com a minha vó. De ir ao seu enterro. De me sentir energizado com a pilha e correria que nos envolve sem que notemos. De ser parado pela polícia de madrugada. De servir como mesário por inscrição voluntária. De passar o sábado lendo processo e achando que era o caminho do futuro.


De ir pouco ao interior.


De aprender a trabalhar.


De aprender a ser resiliente.


De perceber o significado do senso de urgência. De perceber como a pressa tem preço. Depois percebi que nem toda cidade, nem todo Estado, vê sempre a urgência que nela se vê.


Conheci gente do bem.


Conheci esnobes e fanfarrões. Boteco e restaurante.


Aprendi uma parte da vida que só existe ali; é preciso ferver no seu caldeirão para sentir o calor de seus arranha-céus; é preciso se molhar desprevenido e sem guarda-chuva para pegar o resfriado dos desavisados.


Eu posso sair de São Paulo, mas ela jamais sairá de mim.

Comentários


@2025 - Todos os Direitos Reservados - ANTES QUE EU ME ESQUEÇA - CRÔNICAS E ESCRITAS - From WWEBDigital

bottom of page