A primeira historieta.
Um grito no prédio ao lado do meu. Um grito alto. Um grito forte. Um grito agudo. Logo as postagens do grupo do condomínio no Facebook começaram. Um homem teria esfaqueado uma mulher. Havia sangue no elevador logo interditado. Ela saiu correndo. Ele fugiu. A polícia chegou. As mensagens no Facebook pedindo a cabeça do homem. Deveria ser preso. Ninguém queria encontrá-lo no elevador. Todos desesperadamente queriam saber de quem se tratava. Tinham todo direito de saber... Uns cogitaram mudar de apartamento. De prédio. De condomínio. Isso foi há alguns dias. Hoje, subindo no elevador, na rádio-peão, me atualizei. É, a coisa não foi bem assim. Foi quase assim. O apartamento era dele. Parece que ela mesma teria se golpeado. Parece que nem prestou queixa. Tudo se parece no momento.
Segunda historieta.
Numa das cenas de Alto Mar, série da Netflix, uma mulher é lançada ao mar desde o deck mais alto de um grande navio que, saído da Espanha pós-Segunda Guerra Mundial em direção ao Brasil, morre afogada. Param o barco, abaixam o bote mas acham somente o seu vestido branco. A trama continua, meio interessante e meio sonsa, até que descobrem que na verdade o corpo lançado era o corpo de um homem, o suposto assassino dessa mulher que havia sido lançado ao mar. A vítima vestiu o homem com o seu próprio vestido e gritou do alto enquanto ele despencava no mar.
Terceira historieta.
Neste final de semana meu sobrinho teve um incidente doméstico. Olhamos o dedo; parecia que estava quebrado. Chorou gritando e gritou chorando. Inchou bastante. Ficou roxo. Da casa até o Hospital aquela apreensão para saber se precisaria de cirurgia no dedo. Quantos dedos havia quebrado? As pernas também poderiam estar machucadas. Do Hospital soubemos que não foi nada de grave. Apenas um susto pelo qual tantos pais passam com seus filhos pequenos. Crianças sendo crianças.
Quarta historieta.
Era um inventário parado há muito tempo. Mais de dez anos com inúmeros imóveis em condomínio sem que uma divisão mais cômoda ou venda fosse feita. Disse ao meu novel cliente para resolver, eis que valeriam muito mais regularizados. Desista, Doutor, a parte de lá é impossível. O diálogo é difícil. São irredutíveis. Vamos tentar, já temos o não. Algum tempo depois percebi que a parte difícil era meu cliente na exata e inversa dimensão de suas imprecações. Demorou, mas o acordo saiu.
Então, a quinta historieta!
Na verdade não tem quinta historieta. Quatro já são suficientes para lembrar que as primeiras impressões foram feitas para se tornarem segundas, terceiras e quartas. Eu sei que a crônica de hoje não teve palavrão nem piada. Eu não tô a fim de dar risada nem de extravasar absolutamente nada que não seja temperança.
Ou melhor, confiança.
É a razão de ser, de existir, de um processo administrativo ou judicial. De uma apuração: tornar a desconfiança confiável.
E termino com uma mandinga a mim mesmo: que me quebrem os dedos do pé - todos ao mesmo tempo - se eu escrever uma crônica tão chata novamente.
Comentários