Comecei a postar crônicas no Facebook, duas na verdade, logo depois que escrevi sobre um encontro com Luisa Parnes na ponte aérea. Repare Luisa que dou seu nome por conhecido. Nem falei de seus feitos. Logo meu irmão e a Dea sugeriram um blog. Pesquisei. Muitos por aí. Conversei com alguns e percebi que, como quase tudo na vida, é o tempo que confere credibilidade ao blog. Seria preciso escrever. Escrever e escrever. Escrever até que as pessoas se acostumassem. Se identificassem. Ou não. Um ano. Fechei comigo um ano. Todo sábado, às oito da manhã. Antes da feijoada. Antes da caipirinha. A crônica deveria estar lá.
Por estar. Para estar. Para pairar.
Nas nuvens.
A primeira se chamou antes que me esqueça. Virou o nome do blog. Em seguida veio eu vivo sobre uma semana típica da política brasileira. Lembro de Einstein me levou ao bullying dos tempos do colégio. La negra me trouxe as lembranças em que Mercedes Sosa soava alto em casa; alto na adolescência. Dei um rolê pelo Uruguai e conheci a Marcinha que, desde lá até hoje, vive vivendo. E gargalha para a vida até hoje. Ah, os relógios. Como há vida, a morte me apareceu. Pedi a ela mais um tempo; embora concedido, não tive dúvida em alertar a todos expressamente. Uma moça jovem num bar qualquer me brotou um shot. Quando a minha biblioteca se tornou compartilhada na garagem do Diabo fez-se o devido registro em EGB lança a Evil Garage Bar Library. Fui até Ithaca, USA. Depois peguei o túnel do tempo numa esquina e fui para 18/06/1908 através do Kasato Maru. O cinza de 2017 me aparece numa manhã nublada em São Paulo. Vejo coisas. Vejo o passado e o futuro.
Deus.
Ela, a estonteante Jheniffer Lopes, me traz de volta à realidade.
Quando saio de manhã o tapete se transforma numa crônica.
Fui ao show do Matanza e escrevi sobre a matança. Reencontrei uma amiga da Faculdade que se via, lá longe, a velhinha maluca. Num momento de extremo cansaço escrevo sleep on the floor. Me soltei nessa crônica. Fui para a Bahia com minhas filhas e registrei bem o momento que eu te vi, Cabral! De repente Raulzito me aparece. Nunca esteve longe. Em 03/03/2018 eu me achei. No exercício de minhas reflexões sobre a escrita vi o copo cheio; minhas reflexões sobre a razão da escrita atingiram seu ápice e eu me deparo com frases como...
"Todo e qualquer instante pode ser objeto de uma crônica. De um conto. De um devaneio. Uma saia faz uma poesia. Um amor perdido também. Um óbito fez "crime e castigo". O álcool fez Bukowski. E eu faço esta crônica de um copo d´água. Cada um se vira com o que tem à mão. Há sempre um olhar metafísico nas coisas, convenhamos. E, assim, fica difícil azedar com a realidade posta, das coisas como são, das pessoas que fantasiam a alma além do Carnaval. Que, sérias, se revestem leves. Que, leves, se revestem graves. Que, pobres, se revestem ricas. Que, vazias, se revestem plenas. A energia gasta em parecer o que não se é, eu capto para a historieta."
Registrei uma confusão da época da Faculdade num bar chamado veneno cor-de-rosa. Meu filme preferido, na natureza selvagem, aparece do nada quando como um espetinho de kafta em Ubatuba. Até a cadela, o galo e a geleia viraram título de crônica. Eu estava lá. Em 29/03/2018 estava no show do Eddie. Eu o vi, ele não me viu. Foi do caralho! Nas minhas andanças pelo Rio, ele, ela, a cidade que se diz maravilhosa me aparece na abordagem sobre a violência entre os cariocas. De repente, numa manhã que se dizia qualquer, ouço a musicista Sofia Ceccato. Me apaixono. Ela não. Depois de longos oito meses a convenço a tocar thick as a brick exclusivamente para o blog. A flauta mágica...Vibrei com a exclusividade e com o prazer que a exclusividade nos proporciona.
De Recife, 07 de abril de 2018, escrevi sobre Luiz Gonzaga no dia em que o Barba foi preso. A estas alturas já tinha comprado a minha máquina fotográfica e aprendi a registrar o cotidiano pelas imagens. O número de minha pulseira no Lollapalloza, 321765, foi o título da crônica de minha experiência em festivais. Pelo JFK cheguei até a Itália. E de lá escrevi uma parte de meu cotidiano. Percebi que há uma Itália dentro de mim. Ouvi Bella Ciao na praça de Brescia tocada por uma orquestra, um verdadeiro orgasmo emocional. A gastronomia italiana foi anotada em Milano a Livorno. Um dos momentos mais mágicos da minha vida não passou despercebido quando escrevi De Berlim a Elda. Numa reviravolta do meu périplo pela Itália fui conhecer Zurique, Zurich, Zurigo. Voltei para o Brasil. Num dia qualquer cansei de mim. De tudo. Do tédio. É pra lá que eu vou registrou o mundo da fantasia. Todos nós precisamos de um mundo da fantasia, correndo paralelo ao mundo da realidade, do cotidiano. Minha amiga Pat volta da Itália e me manda seus êxtases...como ela viajou...e nos recomenda....pra comer rezando.
Poxa Brandão me faz voltar muito tempo atrás. Eu o conheço. Ele não. Do nada, nas Campinas entre amigos, descobri exatamente o dia em que o boi falou. Toda a minha energia e força para alterar uns caminhos, uma alquimia toda, eu registrei em partiu Kombucha! Pela segunda vez que fui acampar com minhas filhas e encontro um agente secreto de Minas. O brasileiro, o Brasil, tão próprio, tão ele, tão amigo. 977 vezes eu pensei em deixar de lado essa história de escrever crônicas para não me tornar refém de mim mesmo. Me dei conta de que estava tudo bem em casa assistindo à mostra internacional italiana de cinema, numa das jornadas mais incríveis...sobre cinema, vinho e uma boa companhia.
Um post da Carol brotou o pé de maçã de Biro´s Mansion. Ervas, vereadores e sal grosso foi uma troca de cadeiras entre as gerações. Leia lá. Numa das exposições de fotografia em São Paulo, a vida louca vida me fez escrever a arte lorca. Um dia uma triste notícia te aparece. Os ciclos se evidenciam. Meu bar preferido encerra as suas atividades, fecha a minha garagem do Diabo. Percebo que escrever é atualizar o passado para enxergar o futuro, dar asas à criatividade para escrever o Genghis Khan di Parma. Pego-me lembrando dos primeiros peitos e bumbuns....e resolvidamente a chamo de os peitos da adolescência.
Meu lado azedo aparece em mindsetese. E quase agora uma rebelião me apresenta a cena do crime. Todas aí. Ao longo da jornada descobri leitores e leitoras.
Uma delas, a Marta Fuji, me pergunta: por que você escreve?
A primeira resposta é simples.
Porque a crônica se vomita de mim; me faz bem.
Para que as minhas filhas leiam, quando e como quiserem.
Para que a nossa história, além de vivida, seja contada.
A qualquer tempo.
Foi do caralho!
Parabéns!
Comentários