Brandão, dá um tempo!
É você, o Ignácio. O Loyola, o Brandão! Que se entregava às sessões de cinema nas tardes de Araraquara. O bom de ser cronista desconhecido é que eu posso puxar a tua orelha e você não saberá nunca, posso reclamar à vontade que, estatisticamente, a chance de você me ler é remotíssima. Já não me bastassem trabalho, família e as coisas do cotidiano, fui me meter nessa encrenca que é escrever crônica.
Culpa tua. Primeiro eu lia as tuas no Estadão e depois as do Mário. Quando via as notícias já eram as últimas. Logo descobri Não verás país nenhum. Achei a edição num sebo no Centro; do Círculo do Livro. Você não sabe, mas toda vez que vejo crise de abastecimento, do que for, água, tomate, energia elétrica ou combustível, me vem essa frase na cabeça. Não verás país nenhum. Bom, devo dizer, que eu acrescento por minha conta, Brasileiro, seu idiota, desse jeito não verás país nenhum. Daí você imagina o quanto a sua frase me é recorrente.
Mas aí vem a Ruth Manus e conta que almoçou com você.
E eu me mato de inveja. Sigo a vida.
Aí vem a greve dos caminhoneiros.... O problema é que aí você não me sai mais da cabeça. Vou lá na minha estante e pego o livro que você me autografou lá na Pirapitingui, a de Ramos. O Azevedo. Fui lá. Eu que sempre odiei a segunda-feira, quando vi o título não hesitei. Fui lá autografar o meu O Homem que odiava segunda-feira; na minha frente Dráuzio Varella e a Regina. Estação Carandiru bombava, você virou pra ele e falou Dráuzio você é quem deveria estar sentado aqui...Vocês conversaram por alguns minutos e eu esperei ali, meio tímido, achando tudo muito louco. Até então não sabia que o escritor burilava a dedicatória logo depois de olhar para a cara do sujeito.
"Carlos, se acha tudo louco, olhe a vida! Abraço, (um rabisco), 18/11/1999.
No mesmo ano em que terminei a Faculdade; sim eu achava tudo muito louco mesmo. Trabalhava e estudava que nem um louco. As libertinagens sensoriais haviam se diminuindo e eu, no rolo compressor, na roda-viva, tinha obsessão por efetivação. Só pensava nisso, só queria aquilo, ser efetivado.
Eu era uma perspectiva e não uma realidade.
Só se era alguém se você fosse efetivado.
Conversa vai, conversa vem, e aí? Foi efetivado? Pro inferno. Talvez por essa época que me tombei a escrever poesias. Um inferno. Eu precisando ser efetivado e a poesia não me largava. Correndo no Ibirapuera, me vinha poesia. Poesia-revolta. Poesia-indignação. Nada de poesia de amor ou contemplação. Eram trechos de vida que se vomitavam em mim em versos, como se viessem prontos para serem excomungados.
Hoje queimo a vaidade no inferno toda vez que a profissão se anuncia revestir o homem; e não ao contrário.
Ou, como o gênio no espelho, quando o Alferes mata o homem.
Eu fui efetivado. Tempos de gravata apertada.
Tempos de bolso apertado.
Eu e o Brandão odiando a segunda feira. Agora Brandão, dá um tempo de alguns meses, Brasil dá um tempo de alguns meses, antes que não vejamos país nenhum. Neste ponto eu parei e assisti a diversas entrevistas do Brandão. Muitos livros dele não lidos por mim, ao que me encarrego de providenciar as leituras tardias, antes que eu me esqueça.
Não sabia que ele tinha viajado o Brasil inteiro, um desejo que venho realizando aos poucos.
Ah, como é bom ser efetivado pela vida!
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