LollaPalooza, março de 2018.
Alguns metros depois de passar pelo portão, do topo, vê-se uma multidão chegando aos palcos, descendo por entre as pistas do autódromo. Pausa para o letreiro enorme do LollaPalooza no Insta, no face. O festival, num formato de trupe, surge como despedida da banda Jane´s Addiction, idéia do seu vocalista Perry Farrel, em 1991. Vai até 1997, ressurge em 2003 mas ganha força com a entrada da atual C3 Presents na jogada. Em 2010 inicia a sua jornada para o exterior,
Santiago, Berlim, Paris, Buenos Aires, Bogotá e São Paulo.
A organização é incomum para um evento desse porte. Extraordinária é a origem da palavra Lollapalozza. R$ 850,00 pelos três dias de festival. Várias bandas e vários palcos ao mesmo tempo. Não vi nenhuma briga. Raríssimos os estressadinhos. O ingresso é uma pulseira, um chip, que se pode carregar com antecedência e se a utiliza durante todo o show, para tudo. Quase não há fila para carregar créditos; tendas e redes espalhadas por todo o espaço.
Muito espaço, muita gente, muita música.
Banheiros e foods trucks espalhados por todos os lados. Circulam ambulantes com cerveja e salgadinhos. A galera guarda os copos Budweiser...empilhados como registros etílicos. Acomodam-se na grama. Cantam. Dormem. Conversam entre si. Fãs extremistas se aglomeram muitas horas antes para ficar na grade. Outros ouvem a música sem nem olhar para o palco. Namoram trocando bares e sofás pelo som próximo de uma banda por vezes até desconhecida. Fumam seus baseados em grupos ou sozinhos. A vibe é de curtição. Meninas mais novas trocam a camiseta por sutiãs e andam com seus peitos rijos sem se importarem com nada além dos posts. Não sei se saem de casa assim ou se se libertam mesmo no meio da empolgação.
Não é a fé nem a política que move multidões. É a música.
Duas montanhas de multidões vendo Imagine Dragons. Outra montanha cantando Black ao mesmo tempo e pirando grandão ao som de The Killers. Cansa. É preciso disposição. Jovens são maioria, não se assustam com os banheiros químicos; com a energia que precisa ter para encarar três dias de festival e com os cochilos nas cangas. Cansa o corpo. Liberta as boas vibes. Entrei com a minha máquina semi-profissional, limite máximo permitido. Só vi mais duas pessoas com máquinas fotográficas. Vale o history do Insta ou o registro no Face. Fotografa-se o tempo todo. Movimenta-se o tempo todo.
De uma palco para o outro, acostuma-se a ouvir música como se brotassem das entranhas dos morros. Eu curti mais do que show em Estádio de futebol. A vontade de ver o festival em Chicago bate na hora. Tomorrowland, Rock and Ring, Coachella Fest, Glastonbury Festival.
Em tempos que vídeos e show se vêem no Youtube cada vez mais a experiência do ao vivo ganha significado.
Assistir num só dia duas bandas diferentes e várias bandas boas em intervalos pequenos é a experiência que paga o cansaço e os banheiros químicos. É festival de música e paz. O autódromo cede aos roncos dos motores; aos gritos da multidão. É o local da adrenalina; da emoção. O único martírio é tomar Budweiser, que só não estraga o festival porque há uma, repito, uma única, tenda da Goose Island para lupular a garganta com IPA enquanto a idade vai nos deixando ligeiramente amargos.
A política deveria aprender com a música, está muito longe o dia em que vamos ouvir comícios verdadeiros de políticos que nos inspiram, nos motivam, em vez de nos falsearem e nos roubarem?
Não tinha nada que falar em política.
Antes que eu me esqueça, é preciso rodar alguns festivais aí pelo mundo, talvez Rock And Ring e aproveitar para conhecer a Alemanha.
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