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O Veneno cor-de-rosa

Foto do escritor: Carlos Camacho
Carlos Camacho
10 de mar. de 2018
4 min de leitura

Atualizado: 22 de jul.


Foi um quebra pau só. A briga é a expressão da desinteligência. E, reparem, ando às tantas com copos esses tempos. Mas o de hoje é o copo de cerveja e não de água. E não tem nada de metafísico.


Um pai e uma mãe, ambos casados mas não entre si, um de São Paulo e outro de Limeira, me disseram que orientam seus filhos a reagir na porrada se forem injustamente provocados. Queriam dizer que tinham a preocupação de ensinar seus filhos a se defender.


Se a vida vai lhe dar porrada melhor aprender a se defender desde cedo.


Só estas últimas frases já renderiam uma dissertação de psicologia e discussões tavernéticas sem fim. Atualizem-se Houaiss e Aurélio. Tavernéticas são as discussões frenéticas que ocorrem em tavernas. São frenéticas e etílicas. O que a distingue das demais tagarelices é que nunca há um consenso. Se unânime tavernética não é.


Há muito tempo estávamos saindo do bar; Rodrigão e eu com um copo na mão. O bar era uma casa na Vila Madalena e da porta de saída ainda tinha um portão com uma mesa, quase na calçada.


-Senhor, por favor, não pode sair com o copo.

-Não vou sair...vou deixar ali naquela mesa.

-Não Senhor, tem que deixar aqui dentro...

-Mas a mesa lá de fora tá dentro do bar...vou entregar a comanda e deixo o copo na mesa.


Estudante de Direito é folgado. Mal entra na Faculdade e se acha o defensor intransigente dos direitos todos, os dele, dos amigos, dos amigos dos tios e dos amigos da namorada dos amigos. Não encosta a mão em mim. Vou botar o copo ali, deixe-me passar, pare de criar confusão, tira a mão de mim, pá daqui, pá de lá, cola brinco, se afasta, tira a mão de mim, vão arrumar confusão fora do bar, com ou sem copo, e pronto.


Nessa o Rodrigão já tinha saído pra pegar o carro, tinha uma picape na época. Veio um daqui, outro dali, a confusão estava armada e o cerco se fechando, pé do ouvido, soco, chute no peito, ouço a buzina, Limeira sobe aí. Abriu a caçamba e eu pulei dentro. Pra que? Um maldito copo. Um maldito ideal.


A desinteligência.


As baladas oferecem prazer e perigo.


Bom, Trump também oferece perigo e fica chamando o cara de Rocketman, pra que? Um maldito foguete. Um maldito ideal. Também, olha o nome do bar. Veneno cor-de-rosa. Não há orgulho nenhum em contar confusão em bar. Mas às vezes você precisa mesmo aprender a se defender, a sair de uma encrenca, a saber contornar. A ignorar provocações, umas das saídas possíveis. Foi o Rodrigão no grupo do zap que me lembrou dessa história. Não é fácil manter contato com os colegas da faculdade, a vida vai tomando seu rumo individual e se não tiver vontade não consegue reunir meia dúzia de amigos. Facebook e zap ajudam muito mas se não tiver uns dois empenhados a coisa não sai; não acontece.


No próximo final de semana, considerando-se a data que escrevo, vai rolar um churras da turma. Pelo zap, um adicionando o outro, conseguiremos reunir uns vinte, turma que se iniciou em 1995 na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Dizia Casseb, um caricato professor de Direito Tributário, que era a única que tinha um bar dentro do campus, oficializado mesmo. FDSBC é reconhecida no meio jurídico, nasceu na época da Ditadura. Hoje, como autarquia municipal, é um ótimo custo benefício.


Sem web, estudávamos pelos livros, uma nota preta gasta no Jaime livreiro no começo de cada ano. Eu fui da última turma antes da reforma do MEC, através da qual houve a obrigatoriedade de apresentar monografia e outras exigências dos professores. Que pena. Hoje, olhando a graduação, penso que a formação do curso é demasiado beligerante; não há por exemplo uma cadeira de negociação ou ênfase em matérias mais específicas como regulatório e mercado de capitais. Deveríamos ter uns dois anos de filosofia no mínimo. Não tinha nada disso ao menos. Quem não fizesse estágio vivia num outro mundo; o teórico.


O raciocínio jurídico se aprende nos livros, na apreensão dos conceitos, no lento e insistente processo de resolver problemas práticos considerando valores. Advogar é também acolher e dar segurança ao cliente. Na prática a teoria vira espetáculo; brilha. Em última análise decidir um conflito é optar por valores. Como o da briga. De um lado, o respeito às regras do bar, de outro, o direito de não ser agredido injustamente. É preciso ensinar os filhos a se defenderem. O revide à agressão injusta é legitimado juridicamente, não se exigindo do homem covardia a ceifar a sua própria vida. A legítima defesa é o melhor exemplo, pelos meios e modos necessários, para repelir a injusta agressão.


Fechou o veneno-cor-de-rosa.

Fechado o churrasco da turma.


Abro a porta para meus amigos; que são a minha própria história. Antes que eu me esqueça, acho que vou fazer boxe. Cansei de corridinha no parque.


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