Ao som da flauta eu desapareço; ao som dela eu me desintegro no espaço e como sopro de vento, leve, eu tomo o rumo das brisas incertas que se distanciam dos meus ouvidos terrenos. Já como pássaro, perfume, música ou folha eu me olho de longe; etéreo me vejo no mundo da magia, onde a razão se dissipa sem compromissos; e somente pelo sopro da flauta é que se atravessa esse portal.
Toda flauta é mágica.
Foram os duendes que a inventaram; só pode.
Os que me acompanham aqui sabem, já me ouviram dizer, que a literatura e a música não são criações humanas; nos olharam de longe e nos enviaram estratagemas para que a realidade não fosse de toda implacável. Mas, quando enviaram a música igualmente pensaram que seria necessário um instrumento que de imediato nos arrebatasse para outra dimensão. E, aí, nos enviaram a flauta. Quando ouvi Jethro Tull a primeira vez foi a flauta que me enfeitiçou. E, depois, quando fui ao show deles em São Paulo, tive a certeza de que toda flauta é mágica. E o Digão Aguiar na parada.
Os músicos que a tocam são mensageiros dos tempos mágicos.
A multidão segue o ritmo da flauta, Ian Anderson solta uns chutes pra frente numa típica demonstração de que recebe entes doutros mundos. Prova disso é que eu desmaiei nesse show. Acordei com água na cara e o chute do Ian como um vulto.
Thick as a brick começa com um sopro de flauta e recorta um período de tempo, de um povo, de uma família, de um jovem envelhecendo em tempos medievais. A música dura quarenta e seis minutos. Logo no começo tem um solo de flauta que prenuncia a jornada, de apenas 4 segundos, e é ela que nos transporta para o mundo de Gerald Bostock, o garoto fictício criado pelo vocal Ian Anderson para contar a sua jornada.
Thick as a brick não seria a mesma sem a flauta, depois, no decorrer da música, é ela que mantém a mágica no ar. Ela que nos atrai para as angústias do tempo; ludicamente. E é a flauta que nos transporte de volta a tempos passados enquanto se canta um dos versos de que mais gosto:
Spin me back down the years
And the days of my youth
Draw the lace and black curtains
And shut out the whole truth
Spin me down the long ages
Let them sing the song.
Não foi a flauta de Ian Anderson que me trouxe o título desta crônica, mas a de Sofia Ceccato tocando solos de Bach junto com o MC Fioti, Bum Bum Tam Tam, enquanto tomava um café na padaria. Ela tocou o solo sozinha e depois com ele. E, agora, terei que dividir a minha paixão com mais uma, não sei se darei conta de admirar platonicamente Johanna Soderberg, Klara Soderberg, Carla Bruni e Sofia Ceccato.
Depois, a achei nas redes sociais e vi o restante de seus trabalhos. Mas Sofia Ceccato não é só flautista de primeira, ela é embalo; se vai na magia da flauta e não toca com o sopro mas com o corpo; no balanço. Se lhe perguntarem onde andava enquanto flauteava ela dirá que noutros tempos; noutros vilarejos, no mundo mágico de Sofia talvez.
Ela é a própria fada dos templos dourados que nos arrebata para além das montanhas; que nos faz caminhar sem destino pelos lagos esquecidos, pelos bosques encantados...
Depois de ouvi-la, depois de vê-la flautear, vem o desconcerto da realidade e a implacável admiração....quanta beleza, quanta leveza, quanta maravilha ver uma mágica dos tempos modernos, uma feiticeira que nos atrai pela flauta, nos rapta pelo dançar discretamente sensual e nos manda para as nuvens pensativos misteriosas. E logo imagino Sofia e sua flauta andando pelas pastagens e paragens dos campos, vestida de camponesa, entre trilhas, trabalhadores e pássaros.
Enquanto passeia deixa pelos ventos o seu perfume em dós, rés e mis.
Toda flauta é mágica; toda flautista é mensageira do intervalo entre caos. Da trégua.
Só, Antes que eu me esqueça; fecho os olhos com a flauta aos fundos.................depois de ver esse vídeo mágico tocando Thick As A Brick gravado especialmente para o blog...
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