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O cinza de 2017.

  • Foto do escritor: Carlos Camacho
    Carlos Camacho
  • 30 de dez. de 2017
  • 3 min de leitura

Escrevo esta de São Paulo, numa manhã cinza de domingo; tipicamente paulistana. Céu nublado e minha vista da janela são prédios com doze árvores postas numa faixa que termina com a igreja. O azul atrás da cruz e do sino da igreja é de uma torre envidraçada e não do céu. Há um caminho verde para o templo de Jesus Cristo e um caminho cinza para os firmamentos; onde dizem ele subiu para sentar-se à direita de Deus.


Filho de professores que sou a minha educação e dos meus irmãos sempre foi prioridade para mamãe e papai; que lecionava Teologia em colégios de ponta desta Capital. Escrevo aos 26/11/2017 e programando a postagem em razão dos recursos incríveis que há num Blog hoje. E assim papai conseguiu bolsa no Santo Américo, onde estudamos meu irmão e eu por muito tempo, colégio de classe alta da cidade, convivi com filhos de empresários milionários. Essa diferença nunca foi problema, ao contrário, ali tive amigos incríveis e com eles uma convivência cujas lembranças são as melhores. Jogava bafo com as figurinhas no intervalo. Nunca sofri bullying ali. Pelo contrário, sempre muito bem recebido nas mansões e nas fazendas por onde passei nessa época. Andava pelos corredores do Santo Américo ouvindo: - manda teu pai me dar uma nota preta hein! Era amado pelos alunos.


Enquanto os motoristas com carros pretos passavam para pegar meus amigos, pegávamos eu e meu irmão carona com Assad. Caricato o Assad. Ele tinha um passat verde, dirigia devagar e falava pouco. Dirigia muito devagar. Falava muito pouco. Usava óculos e o carro estava sempre limpo. Do Morumbi até o metrô Ana Rosa e depois de busão do metrô Saúde para a Vila Moraes. Uma hora e meia depois chegávamos em casa. Esse trecho recaiu sobre mim quando me vieram as lembranças das minhas aulas de teologia que tinha no Santo Américo; as orações eram constantes. Meus professores eram Padres e as filas eram obedecidas. Por esta época visitei a Diretoria pela primeira vez, de tantas. Questionei a professora de Teologia, alegando que ela estava sendo injusta. Fomos proibidos de ver o time do São Paulo que estava treinando no campo do Santo Américo porque a fila estava muito bagunçada e com muita conversa. Não foi fácil para um palmeirense admitir isso. Menino abusado levantar a mão no meio da sala e dizer que a professora tinha sido injusta.


Como pode uma professora de Teologia ser injusta? Que absurdo um moleque de 9 anos fazer questionamentos desse jeito. Eu sei o que você pensou. Filho de professor, bolsista e ainda fica tumultuando na sala de aula! Mamãe, chamada, foi ponta firme e segurou a bronca: - sim, estou educando meu filho para ser contestador, para fazer perguntas. Agradeço os queridos amigos e professores do CSA pela experiência maravilhosa. Sou capaz de fotografar pela memória o rosto da professora, da fila, da Diretora e do Passat do Assad. Repita-se esta rima, pela sonoridade, o Passat do Assad.


A vista da janela mudou completamente o destino dessa crônica. Sentei para escrever a minha percepção sobre a exposição do Renato Russo ontem no MIS aqui em São Paulo, após um périplo. Essa crônica foi escrita enquanto rolava Legião Urbana, o cinza de 2017 era o do país e não o meu; nunca em minha vida, nunca antes destes tempos recentes me perguntei tão visceralmente que país é este. Desconfio em tese a confirmar que o brasileiro não sabe que país é este; desconfio em tese a confirmar que Deus não é brasileiro; desconfio em tese a confirmar que o Brasil é o país do futebol e do carnaval porque nunca se perguntou quem era. Foi o que sobrou.


Por fim, desconfio em tese a confirmar que o problema deste país é exatamente essa percepção que acima se expressou inconscientemente, que este país está cinza enquanto eu estou azul; os brasileiros se sentem azul num país cinza. Temos mesmo nosso próprio tempo?


Gostaria de ser cinza num país azul.

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