de 2003
- Carlos Camacho - Foto: Renata Aguiar
- 9 de dez. de 2017
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de jul.

Sexta-feira passada. Av. Paulista. Logo após o frescor da manhã, perto do meio-dia. Estava quente, não muito. A brisa amainava..... Não chegava a “rachar as catedrais” como dizia Nelson Rodrigues. Passo por uma das infinitas bancas de jornal e observo um ligeiro alvoroço. Dez pessoas entretidas com 6 manchetes garrafais. Ou quase isso. Alguns iam se interessando pela notícia, aproximando-se e, sem perceber, empurrando os da frente, que iam cadencialmente afastando-se para os lados. A esta altura já eram 12 pessoas para 6 manchetes.
Dois pra um! Todos ávidos por notícia.
Pela vida sofrida, na verdade. Fui chegando mais perto para dar uma olhadela também, mas logo notei que há todo um sistema de regras, é impressionante. Pra tudo agora há regras, nada mais pela palavra. (lembram-se de quando as bancas vendiam cerveja e chocolate?) Retomando. Caí na besteira de, estupidamente mesmo, atrever-me a disputar um espaço entre as tragédias do dia.
Primeira lição: não se chega ao aglomerado pelos lados. É falta grave. Toma-se de imediato um chega pra lá. Dos fortes. Parece que foi sem querer, até te pedem desculpa. Mas assim que dão conta de que você quer ler pelas arestas, não tem perdão, te afastam na hora. Deve-se entrar por trás. Pessoal, olha a malícia! Mas cuidado, sem roçar. Pessoal, olha a malícia! Vislumbra-se a notícia e, aos poucos, demonstrando sempre muito interesse por ela, vai abrindo alas. “Devagar, devagarinho”. Assim, quem estava no centro vai aos poucos transbordando para as colunas laterais. Chega a ser filosófico. Deram-me a dica: leia logo a manchete e as chamadas, as reportagens do centro do jornal. Porque depois você é empurrado para as laterais e só consegue ler mesmo as desgraças secundárias, sem o evento morte. Ficou o aprendizado. Mal cheguei ao grupo, no dia seguinte, já havia lido todas as que continham fonte 16. Depois, ao aproximar-me, quase consigo ler as entrelinhas.
Segunda lição: ninguém fala nada. Podem prestar atenção. Leia quieto. Abstenha-se de ruídos, quaisquer que sejam. Não se manifeste enquanto outros leem. Entendi depois que tomei um psiu! Ou você fala, ou a gente lê. Quer falar, vai ali pra roda onde o pessoal comenta o assunto. De fato havia três pessoas discutindo quem teria ficado com o troféu da Copa João Havelange, após a tragédia em São Januário.
Terceira lição: não compre o jornal após sair do grupo. É desaforo. Pura arrogância. Se podia comprar, por que tomou o espaço de quem não tem o abençoado Real do dia. Pega mal. Brasileiro é complacente, mas não tolera arrogância.
Sábado, NP: “Transeunte mata o velho que furou a fila...Bernardino desfechou três tiros em cidadão que lia jornal exposto em banca da Av. Paulista. O motivo: furou a fila das manchetes”.
Interessante como a crônica retrata mesmo o momento atual. Lembro-me dessa crônica. Lembro-me mesmo do aglomerado que se acumulava na frente das bancas de jornais.
Recentemente andei pela Avenida Paulista e não vi o mesmo comportamento.
As notícias foram para os celulares.
As notícias já passaram pelas bancas.



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